Todo fã de rock é chato. Vê se tem algum fã de samba exaltando as qualidades do gênero e denegrindo os outros? Não, né? Roqueiros acham que só o som que eles curtem é o melhor do mundo. Se for fã de Beatles então, nem se fala! Eles conseguem criar uma subcategoria, exaltando a qualidade do seu membro da banda favorito – fuja daqueles que disserem que o Ringo canta bem!
Eu me considero um roqueiro. E fã de Beatles. E de Elvis. E de um punhado de gente que nunca verei um show ao vivo porque tive a audácia de nascer tarde demais. Meu coração se enche de luz quando, por um arroubo da natureza, consigo assistir a um velhinho das antigas tocando um hit da época dos meus pais (ou dos meus avós), com o mesmo brilho no olho que um jovem rebelde teve um dia. E, principalmente, me considero um chato.
Um dia eu acordo e acho um fio de barba branco no rosto. Hoje encontro uma média de três cada vez que aparo os pelos da cara. Nem cheguei na casa dos 30 ainda e o tempo faz questão de me mandar sinais sutis de que não sou eterno. De vez em quando a gente ignora este pequeno detalhe da lei da vida onde diz que tudo tem um começo, um meio e um fim. Habituamo-nos a deixar a vida nos levar e postergar para o futuro nossas preocupações. Aí num piscar de olhos a sua coluna já não é mais a mesma, enxergar longe já não é possível sem os óculos, e a pequena distância que te impedia de tomar aquele café combinado inúmeras vezes com um amigo torna-se um abismo intransponível por causa da distância.
Isso me faz pensar que o que tenho de mais precioso é o tempo. Ficar na frente do computador procastinando já não é tão interessante. Sair de casa para ir num lugar do qual não gosto só por acompanhar alguém se torna um prejuízo quando poderia estar em lugares mais agradáveis (e em alguns casos, minha cama se torna o melhor lugar do mundo se comparado em cada indiada onde me meti). Dedicar a atenção a uma guria se torna arrependimento quando ela não corresponde às expectativas. Bater um papo sob um assunto idiota no MSN se torna uma merda no momento em que eu poderia estar numa mesa de bar rindo com os meus amigos.
Por isso que quando alguém diz que eu sou chato porque eu me recuso a ir numa festa, ou porque mando à merda algumas pessoas com certa facilidade, ou porque defendo que o Paul era o melhor Beatle de todos, eu respondo: sou chato por falta de tempo.
Acho que o Quintana era mais chato que eu. A certeza é que ele escrevia bem melhor:
O Tempo
A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

gostei do post. o legal de nao ter mais vinte e poucos anos é que a gente se autoconhece mais e pode dizer não pra uma balada, festa, filme que você já sabe de antemão que não vai gostar, mesmo que por causa disso viremos chatos aos olhos de outros.