Dizem que a mente humana é como um grande arquivo de memórias. As mais recentes ficam nas gavetas perto da porta, para um acesso imediato. As mais antigas vão ficando lá pro fundo, restando apenas as informações mais importantes. As antigas e irrelevantes acabam se perdendo ou jogadas fora. Afinal, você não precisa se lembrar do que comeu há dois anos no dia 30 de dezembro. Mas de vez em quando o vento, ora de nostalgia, ora de saudade, abre a porta deste imenso arquivo com força e bagunça tudo lá dentro, fazendo com que lembranças quase esquecidas viessem à tona.
Voltando para casa de moto ontem à noite, o corpo acertou o caminho, mas a mente voou para o ano de 1991. Há exatos 20 anos eu ganhara a tão propagandeada Caloi aro 20 no Natal. A área do condomínio onde morava era perfeita para fazer a estreia: pegava aceleração na área do estacionamento, aproveitava o embalo da descida da lomba, saltava pelo quebra-molas e fazia uma curva fechada sem usar os freios. Pedalava mais um pouco, fazia uma volta em torno do gramado do parquinho, cruzava a areia da pracinha, e subia pela lomba da churrasqueira, forçando o pneu contra um degrau acidentado, empinando a “bici”, voltando novamente ao ponto de partida. Não estava sozinho nesse percurso: junto corriam num delírio de “motocross” o Vinicius, o Luís Gustavo, o Anderson e o Henrique. Esta era a turma daquela época. Os melhores daquela região, eu diria.
O colégio era um tormento pra mim: odiava as aulas de educação física e era sumariamente deixado de lado por não saber chutar uma bola (até hoje esse desvio de coordenação ainda persiste). Sem falar na distância cultural e econômica que tinha dos meus colegas – enquanto a maioria ia pra Disney, eu ia passar a virada do ano em POA mesmo. Minha “válvula de escape” era chegar em casa depois da aula e encontrar meus amigos. Morávamos quase todos no mesmo bloco de apartamentos, o B: eu no décimo andar, o Henrique no nono, Gustavo no oitavo, Anderson no sétimo, e o Vini no bloco A, no sexto andar se não me engano – facilitando a reunião da galera sempre que possível. Com eles eu podia jogar bola sem medo de errar um chute porque ninguém se importava com isso. Quando o futebol enjoava (ou quando os “maiores” nos corriam da quadra), sujávamos as mãos de terra para cavar os bocos e iniciar uma partida de bolita. Ou optávamos por tentar virar algum jogo do Master System – nunca terminamos Alex Kidd, tampouco conseguíamos entender como pegar o disco nos Jogos de Verão. Toda sexta alguém era responsável por locar um cartucho de Master para a turma jogar o findi inteiro, com o custo de uma diária, claro. Naquela época a gente nem imaginava que faríamos parte de uma revolução comportamental, por ser a última geração de crianças que estava entre os mundos analógico e digital, que viu a evolução da tecnologia e dos meios de comunicação enquanto se divertia como nossos pais faziam há 30 ou 40 anos. A corrida de carrinhos de rolimã era tão divertida ou mais do que jogar Ayrton Senna Monaco GP na casa de alguém. E eu poderia seguir falando dos ioiôs da Coca-Cola, dos Comandos em Ação e seus sensíveis polegares, de fazer de conta que estávamos em algum episódio do Chapolin, de ensinar como se dava aquele golpe especial no fliper do Mortal Kombat, do quão foda ver anos depois o clipe do Michael Jackson no Fantástico e imitar seus passos, de ouvir no rádio pela primeira vez os Mamonas Assassinas e achar genial.
O Henrique e o Luis Gustavo eram os que melhor jogavam futebol, em especial o primeiro. O cara passeava pelo time adversário sozinho! Respirava o mundo da bola. Soube que virou sargento e serve em algum pelotão em São Paulo. O Gustavo, um dos meus melhores amigos, levou a pelota a sério. Virou jogador de futsal e se formou em Educação Física. O Vini foi mordido pelo bichinho da informática, e é um dos que ainda vejo raramente, nos esbarrando ao acaso nesta pequena província. O Anderson (ou Derseivis, para nós), o caçula do grupo, pegou recentemente o diploma de administrador – sei disso graças às redes sociais. E eu, o primeiro nerd do grupo, que queria trabalhar com computadores, virei jornalista. O resto da história vocês já conhecem.
Há quem lamente o ano de 2011 pelas coisas ruins que se sobressaíram mais do que as boas (eu sei do que estou falando, acredite). Lamente os amigos perdidos, os amores rechaçados, as tragédias acometidas. Eu prefiro pensar de outra forma: de como aquele meu “eu” lá de 1991 nunca pensou onde poderia chegar, nas pessoas que iria conhecer, nas mulheres que iria amar, e nas confusões que iria se meter. Nunca ia imaginar que aquela Calói, com um pedaço de plástico preso no aro pra emular barulho de motor ia virar uma moto de verdade – em compensação, bem que os tombos de moto poderiam resultar em ralados iguais aos das quedas de bicicleta. Mas não. A tendência é que os tombos cada vez mais sejam maiores e mais feios com o passar do tempo. Sem problemas, estou preparado pra eles.
Olhar para trás, seja pra 2011 ou pra 1991, é relembrar que a vida é instável e sempre será. Mas as coisas boas sempre permanecerão. Mais fácil lembrar das merdas deste ano porque praticamente aconteceram ontem. Tenha certeza que, na próxima virada de ano, o que aconteceu de ruim em 2011 estará arquivado lá no porão das suas lembranças numa caixa bem lacrada. E quando o vento da nostalgia revirar novamente os papéis, só as alegrias e momentos felizes virão à tona.
Aos que ficam, aos que vão, um feliz 2012!

