Ela pegou a calça e passou no sensor de código de barras. “Boa escolha a sua. Vai ficar bem em ti”, disse antes de dobrar e guardar na sacola. Sorri e consegui expressar “obrigado” meio tímido. Ela me olhou e sorriu de novo, como se tivesse conquistado um troféu me surpreendendo. Afinal, compro roupas na mesma loja exatamente porque não tem nenhum daqueles chatos dispostos a lhe ajudar a todo custo. E na hora de pagar é aquela coisa rápida, já que as filas são grandes e o tempo urge. Sem falar que era uma linda morena de olhos grandes e amendoados, o que chama mais ainda a atenção.
Aqui perto de casa tem um mini-mercado onde uma das caixas é uma loirinha muito gata. Ora está com o cabelo solto, ora prende as madeixas num coque na altura da nuca. Atende a todos com uma voz suave e sempre de cabeça baixa. Dia desses vi ela no que suponho ser o intervalo do serviço, comendo um pacote de Fandangos com Coca-Cola. Read more…
Nunca gostei de frases prontas, de ditos populares que possuem uma lição de moral por trás, com intuito de elevar a estima e aumentar a moral. As variáveis que acontecem na vida de cada um mostram que nem sempre uma mão lava a outra, ou que aqui se faz, aqui se paga. Tal como dizer que o futuro do país está nas próximas gerações – há 20 anos jogaram essa responsabilidade na minha geração, e o máximo que ela consegue fazer é xingar muito no Twitter e exaltar músicas de gosto duvidos0. Entretanto abro exceção para uma crença comum dita quando a decepção com a humanidade torna-se latente: é possível mudar o mundo.
E nem precisa nascer em Krypton pra tal.
Quando escolhi o Jornalismo (ou quando fui escolhido por ele, vá saber) tinha comigo a velha utopia dos inocentes de que poderia mudar o mundo num estalar de dedos através da mídia. Passados alguns anos, percebi que estava certo e errado ao mesmo tempo. Não sou capaz de promover a paz entre as nações, nem de convencer o mundo de que a melhor invenção do homem foi o sorvete de flocos. Mas consigo colocar uma gargalhada no rosto de quem lê as matérias que escrevo na Void, aqui, nas redes sociais, ou contando uma história numa roda de amigos. Também fico feliz quando pessoas se identificam com algo que escrevi num tom menos palhaço e mais emotivo. Ou ainda quando se irritam com uma colocação mais radical minha (pra se irritar ainda mais quando descobrem que eu fiz apenas pela provocação). Não mudei o mundo em geral, mas dei uma cutucada no seu mundo particular. Se eu consegui isso, então estou cumprindo bem o meu papel (acho).
Há mais ou menos 15 anos eu ouvi algo que mudou minha vida, e que me influenciou, de certa foma, a ingressar no Jornalismo e tentar mudar o mundo. Foi quando eu fui (re)apresentado às musicas de um certo caipira do interior de Memphis, que deixou de ser um caminhoneiro para virar um rei e revolucionar a música, o comportamento, a indústria e o mundo com meia dúzia de acordes. Talvez Elvis Presley não tenha tanto impacto pra você quanto tem pra mim, e nem faça cosquinha no seu mundo. Mas ele influenciou aquela banda que você ouve quando está com dor de cotovelo, bem como aqueles caras que animam seu dia com um rock bem pegado.
Hoje, 34 anos depois que Elvis voltou pra casa (afinal ele não morreu), ele continua inspirando pessoas, seja para empunhar uma guitarra numa banda ou para tentar mudar o mundo, assim como ele mudou o meu.