Olá.
Creio que eu devia me apresentar, mas você já me conhece. Ou acha que me conhece. Sou o seu “eu” de ontem. Curiosamente me lembrei de você, que ainda não surgiu enquanto escrevo isso – ou está surgindo aos poucos a cada letra digitada. Ao mesmo tempo, em breve deixarei de ser presente para ser uma lembrança no passado. Isso porque as pessoas mudam. Daqui a um segundo, o seu pensamento consolidado e irredutível pode virar pó com um argumento, e a sua vida mudar de uma hora para outra. Eu, por outro lado, permanecerei intacto pelo passado. Uma peça de museu da sua memória, salvo apenas por um rompante reflexivo que rompe a teoria da relatividade.
Escrevo porque estou preocupado com você. Ou melhor, com aquele que virá depois de você, também conhecido como “futuro”. Escrevi esta carta num domingo à noite, o que mostra a ironia da situação. Domingo é o dia que inicia a semana na marcação de tempo burocrática, mas, internamente, representa o final dela. O sistema social lhe dá um dia da semana para poder respirar e afrouxar um pouco as amarras das obrigatoriedades. E o que você faz num domingo à noite? Pensa no que vai fazer nos dias seguintes: no trabalho, nas reuniões, numa forma de ganhar mais dinheiro. Não que isso esteja errado, afinal o mundo é movido pelas expectativas no futuro e, bem, pensar no futuro é o que estou fazendo agora. Mas não da forma que eu gostaria que você pensasse hoje, ou no próximo domingo, quando o seu relógio biológico avisa que um novo ciclo está se formando.
Por exemplo: prometeu voltar a se exercitar. E toda vez que este pensamento vem a sua mente, a resposta automática é “amanhã eu me organizo”. Muito bonito jogar a responsabilidade dos teus atos em alguém que nem surgiu ainda. Lembre-se que a cada segundo que passa é um segundo que você deixou de fazer algo. Escrever “gosto de ti” para aquela mina no MSN demora um segundo, e você não fez ainda. Discar o número de telefone de um amigo distante demora um segundo no celular, e você não fez ainda. Tudo porque você deixa, com o perdão do clichê, tudo para amanhã, quando você pode fazer hoje.
Ah, alimente-se bem e procure dormir suas oito horas diárias. Não se angustie com as coisas que terá que fazer amanhã pois, como eu disse, o amanhã ainda não existe. Preocupe-se menos com metas e objetivos. Aprenda que o “se”, mais do que uma preposição, será uma constante nos caminhos que você tomar, pois a dúvida sempre vai existir. Tome uma decisão e relaxe. Não pense “e se eu tivesse feito coisa?” Tarde demais, você não fez. Depois que você faz uma escolha, todas as outras possibilidades ficam pra trás, aqui atrás, no passado. Óbvio que você pode mudar de rota no meio do percurso, mas nunca vai ser a mesma coisa do que acertar o trajeto de primeira.
Compre botas para os dias de chuva. Vai se lembrar deste conselho quando molhar os pés novamente, e eu, aqui do passado, me isentarei de não ter dado este aviso. Dê, ao menos, mais uma chance ao sushi (é uma porcaria, eu sei), e seja menos bonzinho com algumas pessoas (vai por mim). Aproveite o inverno, já que o verão é uma bosta. E aja mais, ao invés de perder tempo escrevendo uma carta para o futuro.
Aproveite, pois em breve você, que é presente, será passado daqui a pouco. O que você vai fazer AGORA?
Abraços.

