Blog do Piero

Archive for maio, 2011

Podia ser pior. Sempre pode.

Existe um tipo de lógica universal que ignoramos solenemente. É aquela do “se algo dá errado não reclame, pois poderia ser pior”. É uma forma de auto-conforto em relação a uma situação adversa pela qual todo mundo passa na vida, uns com mais intensidade do que outros. Como é um fator variável de pessoa pra pessoa, é natural a comparação de desgraças para, no fim, respirar aliviado e dizer “ainda bem que não estou na pele do fulano”. É o tipo de hipocrisia que funciona quando se pensa que está numa merda federal.

Nos últimos dias eu fui aquele referencial de consolo, onde ninguém queria estar na minha pele. Se fosse mais uma das recorrentes nuvens pretas que sobrevoam cabeças por aí, estaria levando numa boa. Mas creio que esta foi uma nuvem tóxica, liberada pelo reator 4 de Fukushima e que seguiu a rota do minuano para chegar até aqui. O último golpe (e espero que tenha sido o último) desta fumaça nômade de urânio se manifestou em forma de pedra nos rins.

É o tipo de dor que faz qualquer cristão fervoroso virar ateu e mandar à merda quem chega perto e diz que Deus vai curar. A menos que Ele se materialize em forma de ampola de Buscopan. Segundo o médico que me atendeu, a dor que passei só se assemelha à do parto – o que me levou a fazer uma ligadura de trompas e desistir do sonho de ser mãe (BRINKS MANOLO).

Enquanto o remédio agia e me colocava em Nárnia junto com gnomos, elfos e outras criaturas mágicas, fiquei observando a rotina da emergência do pronto-atendimento hospitalar. Quatro pessoas atendiam em uma sala que devia ter umas dez macas para situações graves, e uma subdivisão com oito acentos, onde casos como o meu ficavam sentados aguardando pela intervenção médica. Do meu lado, mais um homem se dobrava de dor com cálculo renal. Na minha frente, uma mulher de aparentes 30 anos chorava com uma agonia sem fim. Mais umas quatro pessoas estavam ali meio apagadas, tomando seu soro numa boa. Daqui a pouco os enfermeiros trazem um paciente cujo adjetivo “arrebentado” seria pouco para classificar seu estado. O cara estava virado do avesso, e só não gritava porque um tubo impedia. Acima disso tudo, um Jesus crucificado acima da porta de entrada observava o ambiente com um certo ar de deboche: “Vocês acham que isso é sofrimento? Pfff…”

Pois bem, se aquele Jesus de madeira tivesse falado isso, daria um “like” no Facebook.

Reclamamos de um amor não-correspondido, de um emprego que paga mal, de uma segunda-feira cinzenta, de uma noite de sábado que se passa em casa, da ressaca de um porre homérico… Mas tudo isso tem solução. A gente é que dramatiza muito. Transformamos nossas pequenas pedras do dia-a-dia em montanhas intransponíveis – e aproveito para fazer meu mea-culpa pelos mimimis esporádicos no Twitter (assuma isso você também, chorador de pitangas de redes sociais!). Você teve um dia ruim? Diga isso para o cara que entra no HPS coçando o queixo com o calcanhar! Mas falar isso é chover no molhado: continuaremos remoendo nossos pequenos dramalhões mexicanos como se fossem o fim do mundo. O coitadismo é uma das formas mais antigas que o ser humano tem para chamar a atenção e se sentir querido, mesmo que superficialmente. Compartilhar “tragédias pessoais” faz com que o peso da cruz seja aliviado, por dividir o drama, por ganhar a atenção de quem ouve, e por – não raramente – achar uma solução. “Você diz isso pra mim? Quer tomar um raio nas fuças?” diria o Cristo entalhado.

Como a sociedade é composta de pessoas carentes e seus pequenos universos com pequenos problemas, dou apenas um conselho: bebam bastante água. Evita pedras nos rins e impede reflexões sobre a vida, o universo e tudo mais numa sala de hospital.

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