Blog do Piero

Archive for março, 2011

Quiçá

Creio que todo aquele que trabalha com palavras acaba nutrindo uma espécie de sentimento por elas. Há aquelas por qual tenho especial apreço e que possuem espaço cativo em um texto. Outras evito em nome da estética da pronúncia, ou por serem rabuscadas demais. Fico feliz quando consigo encaixar um “quiçá” numa frase, por achar engraçada a combinação de letras deste advérbio, tanto que até o movimento que a boca faz para formar os fonemas provoca um riso involuntário no final.

Da mesma forma, existem palavras que incomodam, cutucam, instigam. Sua composição simples deixa que elas fiquem sempre a mão para uso imediato, mas seu significado torna-se muito mais complexo do que as definições registradas no dicionário.

O amor, por exemplo, é uma delas.

Quatro letras distintas que, quando juntas, formam um enigma cuja resposta é tão preciosa que não há ser humano no mundo que não esteja à procura dela. É uma palavra tão forte que, quando usada, pode provocar taquicardia no emissor e no receptor ao mesmo tempo, ocasionando num fenômeno meteorológico em que o corpo sua enquanto as pernas tremem e as mãos gelam.

O grande problema do vocábulo “amor” não é o seu sentido, mas no seu uso exagerado. “Amor” não é uma palavra pra ser dita assim a esmo. Pois o prazer do “amor” está em ser exclusivo, sublime. Ao se tornar banal, ele perde a sua força, o impacto não é mais o mesmo.

Outro termo pouco valorizado é o perdão. Perceba como o encontro vocálico no final preenche toda a boca quando falado: perdÃO. Mas, assim como “amor”, seu emprego ficou muito fácil. Culpa da popularização de outras palavras de sentido negativo que de tão repetidas, requerem “perdão” como sufixo obrigatório.

Se existisse na gramática uma regra aplicada aos sentidos subliminares dos verbetes, “amor” e “perdão” deveriam ser absolutos, sem complementos e de uso restrito. Quiçá um dia isso aconteça. Quiçá…

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A loira que quase me derrubou

Quase caí de moto. Diferente das outras vezes em que o acidente fora provocado pela chuva ou por imprudência de terceiros, este seria motivado por uma loira. Estatura média, cabelos lisos num tom alvo, contrastando com a pele estupidamente bronzeada. Andava empinada pela calçada, imponente, como se o mundo inteiro fosse dela. Saia curta para realçar os atributos físicos da cintura pra baixo, blusa sem alça e sem mangas, apertada no corpo para valorizar o busto. Não, não era bonita de se ver. A figura parecia um farol. Foi isso que me tirou a atenção.

Tenho uma certa bronca dessas gurias que fogem da sua naturalidade em busca de um ideal tosco de beleza. Trocam a cor do cabelo, usam chapinha, fazem aquelas dietas medonhas de revista, tostam a pele artificialmente numa torradeira… É triste e ridículo. Essa indústria da moda e da beleza está pervertendo conceitos. Ou sou só eu que acha broxante uma guria laranja com cabelo escorrido? Quando vejo uma, me lembro automaticamente do filme “Cidade dos Amaldiçoados“, o que me dá uma ponta de medo inclusive.


MORRE, DEABO!

Não estou aqui defendendo que mulher tem que ser desleixada. Mas pô, o que há de errado com cabelos castanhos ou cacheados? Qual o problema de não estar bronzeada no verão? Qual a implicância com aqueles dois quilos que vocês insistem em perder mas não faz diferença nenhuma? Neste quesito, uma mulher de verdade chama mais a atenção (positivamente falando) do que uma mulher artificial, como a loira que vi na calçada.

Se é pra tirar o meu foco do trânsito que seja uma gostosa genuína da próxima vez, e não uma aberração da cosmética.

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Semiose aplicada

Segundo Peirce (eu sempre quis citar este maldito em algum texto apenas para justificar as dores de cabeça que a cadeira de Semiótica me provocava na universidade), a construção de um signo acontece através de um objeto (o significante) e sua interpretação (o significado). A teoria é uma forma de explicar as diversas interpretações possíveis diante de uma mensagem e entender porque piadas de duplo sentido funcionam bem.

Fui atrás de uma das várias contas para pagar e encontrei em uma gaveta um pequeno fotógrafo de tês amarela. Primeiro Lego que ganhei na vida. Não, não é mais uma raridade dos anos 80 como os waffers Mirabel e o Cid Guerreiro. Foi um presente de formatura atrasado de alguém que teve uma relativa importância na minha vida. Ficou escondido no cômodo por um bom tempo por conta do significado atribuído a ele logo quando ganhei. Não queria ter à vista algo que me fizesse lembrar consantemente de uma mágoa. Ainda mais um boneco que está aparentemente rindo da tua cara. E na minha estante, esta vaga já está preenchida.

Agora, meses depois, encontro-o novamente. Queria dizer a ele que está diferente, que a temporada em meio a bugigangas e papéis sem importância lhe deu um aspecto mais jovial. Mas ele não mudou nada, nem uma ruga. Só o seu significado que mudou. Um bonequinho de menos de cinco centímetros agora representa os meus erros e as minhas escolhas. Representa a vigilância para não deixar que situações ruins se repitam e valorizar as pequenas coisas boas que acontecem.

Sem falar que o diabinho está segurando uma câmera fotográfica. Ou seja…

…sorria acima de tudo.

 

P.S.: Apesar do post, continuo odiando os malditos jogos temáticos do Lego pra Wii.

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