
Creio que todo aquele que trabalha com palavras acaba nutrindo uma espécie de sentimento por elas. Há aquelas por qual tenho especial apreço e que possuem espaço cativo em um texto. Outras evito em nome da estética da pronúncia, ou por serem rabuscadas demais. Fico feliz quando consigo encaixar um “quiçá” numa frase, por achar engraçada a combinação de letras deste advérbio, tanto que até o movimento que a boca faz para formar os fonemas provoca um riso involuntário no final.
Da mesma forma, existem palavras que incomodam, cutucam, instigam. Sua composição simples deixa que elas fiquem sempre a mão para uso imediato, mas seu significado torna-se muito mais complexo do que as definições registradas no dicionário.
O amor, por exemplo, é uma delas.
Quatro letras distintas que, quando juntas, formam um enigma cuja resposta é tão preciosa que não há ser humano no mundo que não esteja à procura dela. É uma palavra tão forte que, quando usada, pode provocar taquicardia no emissor e no receptor ao mesmo tempo, ocasionando num fenômeno meteorológico em que o corpo sua enquanto as pernas tremem e as mãos gelam.
O grande problema do vocábulo “amor” não é o seu sentido, mas no seu uso exagerado. “Amor” não é uma palavra pra ser dita assim a esmo. Pois o prazer do “amor” está em ser exclusivo, sublime. Ao se tornar banal, ele perde a sua força, o impacto não é mais o mesmo.
Outro termo pouco valorizado é o perdão. Perceba como o encontro vocálico no final preenche toda a boca quando falado: perdÃO. Mas, assim como “amor”, seu emprego ficou muito fácil. Culpa da popularização de outras palavras de sentido negativo que de tão repetidas, requerem “perdão” como sufixo obrigatório.
Se existisse na gramática uma regra aplicada aos sentidos subliminares dos verbetes, “amor” e “perdão” deveriam ser absolutos, sem complementos e de uso restrito. Quiçá um dia isso aconteça. Quiçá…



