Blog do Piero

Archive for dezembro, 2010

Virando a folha do calendário

Retrospectiva é um negócio meio clichê, porém inevitável nesta época do ano. Consigo até mesmo ouvir o Sérgio Chapelem com aquela voz de tia velha narrando os fatos marcantes do ano que, felizmente, está acabando. Não que 2010 tenha sido um ano terrível, mas foi um turbilhão de acontecimentos e mudanças.

A primeira delas – a principal, talvez – foi que eu me formei. Depois de quase oito anos peguei o tão sonhado diploma. Alegria da família, festa com os amigos, e alforria financeira (chega de mensalidade!). Junto com isso, consolidei o milagre de trabalhar conciliando jornalismo e humor, juntando duas das coisas que curto pra caramba.

Também foi o ano em que abri os olhos para um mundo diferente do que eu idealizava. Vi amigos se mostrando verdadeiros filhos da puta, pessoas que eu admirava agindo como pré-adolescentes por bobagem, gente se aproximando porque acham que ter contato comigo resultaria em alguma benesse futura. Me desapontei com a falta de coerência e de sinceridade de pessoas próximas, e tomei um tombo grande que, confesso, me derrubou pra valer.

Como consequência, me tornei um cara mais cauteloso e realista e menos tolerante. Se isso é bom ou ruim, não sei. Há quem se sinta incomodado com as minhas atitudes. Houve quem tentasse mudar meu comportamento pelo fato de não gostar do que a manada gosta, como se eu fosse me tornar alguém melhor por tomar um porre ou ficar enfurnado em um lugar idiota com música ruim. Tentaram. Sem sucesso. Personalidade forte e ariano orgulhoso, sabe como é…

No meio disso tudo aconteceu a descoberta da liberdade em duas rodas. Vento na cara, equilíbrio e concentração. A facilidade de ir e vir para lugares desconhecidos a hora que quiser, e de se sentir maior que o mundo quando está rodando sem destino.

Se as circunstâncias fizeram com que eu me afastasse de algumas pessoas, o destino tratou de aproximar outras. Muitas risadas, bobagens e sorrisos. Fora que agora sou um “vip” na província, e ainda vou tomar sorvete em Ijuí. :) Sem falar nos velhos amigos de guerra que se fazem presentes mesmo quando a correria do dia-a-dia impede. Sem falar nos casamentos, que agora estão fazendo parte da agenda de eventos ao lado de formaturas e aniversários. Como o tempo não para, terei em breve que me preparar para batizados também!

E no meio de tantos altos e baixos, eis que eu vi o inacreditável. Um show que mudou minha vida.

Foi um ano de merdas e de glórias. Ainda bem que os últimos sempre se sobressaem. Que neste novo ciclo as coisas boas se multipliquem e as ruins fiquem enterradas no passado. Para todos nós.

(É piegas? Sim, é. Mas é um blog pessoal, então releve, OK? Próximo post será engraçadinho, prometo.)

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posted by Piero Barcellos in Cotidiano and have Comments (2)

Ponto final

Acorda assim com um dia meio nublado meio claro vai para a mesa tomar café não se importa se não tem queijo ou manteiga pega o jornal e lê as notícias de ontem se assusta com a morte de um ilustre desconhecido que irá esquecer daqui a dez minutos quando terminar as palavras cruzadas empaca em responder qual a capital do maranhão toma banho correndo porque está atrasado veste a roupa amarrotada aperta o passo para não perder o ônibus pega o celular liga pro amigo que está de aniversário parabéns muitas felicidades nesta data tem festa hoje mas não vou poder ir sabe como é pós graduação desliga para não perder o ponto entra no escritório senta na mesa lê os e-mails urgência logo de manhã reunião à tarde brinca com os clipes da gaveta dá um oi no MSN para um amigo aleatório sente fome mas ainda não é meio-dia novo e-mail responde rápido sai pra almoçar não teve tempo de preparar a marmita compra um miojo só colocar água quente e tá pronto volta rápido pra descansar um pouco antes do turno vespertino começar prepara os papéis da reunião entra na sala xixi do chefe apresentação de resultados sono cobrança de proatividade lembra que esqueceu o livro na casa da namorada manda sms pra ela volta pra reunião cabeça zunindo arruma a mesa sai meia-hora depois do turno pega ônibus pra aula encontra a namorada antes de entrar na sala beijinho tá tudo bem nos vemos na sexta no jantar com os teus amigos volta pra sala teorias página 47 perguntas e respostas tudo anotado e copiado para reproduzir na prova da próxima semana recusa a cerveja com os colegas depois da aula vai pra casa cansado coloca a roupa em cima da cadeira bebe uma coca-cola deita na cama liga a tv tá passando uma entrevista legal num programa qualquer mas tem que dormir porque amanhã não tem tempo e o ciclo começa todo de novo e se repete e segue se repetindo porque a vida é como um texto corrido difícil de entender porque não sabemos colocar pausas quando devemos tampouco quando queremos e entregamos para o destino fazer isso uma hora olhamos para trás e vemos que vida de merda levamos e como poderíamos ter mudado tudo isso mas aí vem o mundo e coloca um ponto final na história cedo demais para que se possa reescrevê-la.

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posted by Piero Barcellos in Cotidiano,Ficção and have Comment (1)

Metáfora em duas rodas

Eis que uma amiga está passando por uma fase ruim. Nem sei se este é o termo correto para designar aqueles momentos de reflexão em que a gente se pega pensando nas decisões que tomou durante a vida, nas coisas que estão acontecendo, e se está caminhando na direção certa. Eu, que passo por situações como esta quase toda semana, dei um conselho que pode ser interpretado como cômico se não fosse eficaz e verdadeiro:

- Compre uma moto.

Jô Soares, outro gordinho metido a humorista e a motociclista (rá), sofreu um acidente em sua Harley anos atrás, cujas sequelas limitaram os movimentos dos braços. O próprio disse em entrevista que “moto foi feita pra cair. Ela até fica em pé, mas sua tendência natural é cair”. O óbvio nem sempre é perceptível a olho nu, principalmente quando se trata de um veículo que depende de um fator vital para se manter em riste mas que anda em falta no mercado das mentes humanas: equilibrio.

Buscar o equilibrio não é uma coisa tão fácil assim. Basta lembrar o tempo que demorou para tirar as rodinhas de apoio da primeira bicicleta. Ou pensar nos anos de treinamento duro que forjam um artista de circo capaz de caminhar com maestria em cima de uma corda bamba. Em ambos os casos a paciência e a prática se fazem necessárias – fatores que vão na contra-mão de uma sociedade que cultua o instantâneo e o efêmero.

Disse para minha amiga que a vida não é fácil pra ninguém. Aliás, viver não é para os fracos. Mas quando o mundo parece cair a minha volta, pego meu humilde cavalo de aço e saio a rodar por aí, tentando me manter em pé, sozinho,  enquanto tudo desmorona. Corpo e mente se alinham num único objetivo, deixando tudo que não vale a pena para trás. Preocupações, brigas, amores perdidos, tudo que incomoda acaba se tornando tão pequeno diante do desafio em vencer a física e a lógica de um veículo projetado exatamente para ir ao chão no menor vacilo.

Esta semana encarei uma chuva de granizo aqui em Porto Alegre. Avenida movimentada, sinaleiras desligadas, gelo batendo contra a pele e água impedindo a visão total. Natureza te empurrando pra um lado, urbe tentando derrubar do outro. No fim, cheguei inteiro em casa, com a certeza de que venci mais uma batalha, e de que tudo o que me incomodava já não importava mais.

Por isso, minha amiga, compre uma moto e tranforme em poeira tudo que lhe aflige. É o que farei logo que publicar este texto.

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O que aprendi com as minhas meninas


Hugh Hefner, suas playmates e a Cuca do Sítio do Pica-Pau Amarelo ali no canto.

Trabalhei durante quatro anos em uma assessoria de imprensa. Quando entrei, a equipe era composta por um cara (que considero um irmão de verdade) e duas mulheres, além das duas chefes. O tempo passou, a empresa cresceu, pessoas foram embora, novas entraram, e quando dei por mim, era o único homem presente num universo de 12 mulheres. Escreverei por extenso: DOZE mulheres. Todas espetaculares, sem exceções.

Obviamente que eu passava por alguns constrangimentos. Como ser o único guasca numa mesa totalmente feminina na hora do almoço. Ou presenciar o comércio de lingeries nos intervalos – o que me levava muitas vezes a pensar na Dercy Gonçalves ou nos problemas socioeconômicos do país a fim de manter a concentração e evitar que determinadas partes do meu ser se manifestassem involuntariamente.

Restava, então, encarar os momentos que passava ao lado das minhas meninas (era assim que eu as chamava), para exercitar a observação, o diálogo e o aprendizado. O “workshop” involuntário por qual passei me fez entender muito da mente feminina (o que não quer dizer que eu tenha colocado em prática tudo que aprendi, pelo contrário). Por isso, irei compartilhar aqui alguns dos conhecimentos genéricos adquiridos (já que cada mulher possui as suas regras particulares), a fim de ajudar irmãos desesperados com suas tetéias, além de relembrar algumas lições e ver como sou burro ao não colocar em prática o que aprendi. Read more…

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posted by Piero Barcellos in Cotidiano and have Comments (19)