Blog do Piero

Archive for novembro, 2010

Quando o mundo se torna pequeno

Eu tenho uma ligação muito forte com a música, especialmente com o rock. Não qualquer rock. Me criei ouvindo os clássicos, e são os clássicos que, mesmo com mais de 30 anos de existência, ainda me surpreendem. Na infância eu era aquele tipo de ouvinte inconsciente, que pouco se importava com o que estava tocando, qual era a banda, mas curtia mesmo assim. E uma das memórias mais latentes daquela época é a de um filme que passou na Sessão da Tarde e que até hoje é cultuado por gerações.

Foi o meu primeiro contato com os Beatles.

Mais adiante, quando a adolescência bate a porta, e inevitavelmente você começa a curtir mais música que o normal (até mesmo pra impressionar as menininhas), comecei a montar minha identidade musical. Na época do colégio havia o pessoal que estava na vibe grunge, os que iam mais pro lado punk, e as menininhas que curtiam as boybands do momento. Eu (demonstrando desde cedo a minha tendência de contrariar a manada) fui buscar minhas referências no passado. E aí cheguei até onde tudo começou.

Dia 16 de setembro de 2009. Cabeça ocupada com o término da universidade, comissão de formatura e contas que não paravam de chegar. No meio disso tudo, arranjei tempo para ver um mito do rock, o “matador” Jerry Lee Lewis. Ele fez parte dos primórdios do rock, e numa época onde a sociedade privilegiava os bons moços, Lewis era a rebeldia em pessoa. Eu vi um senhor de 74 anos subir no palco e fazer o publico delirar como se o tempo não tivesse passado. Por alguns instantes eu voltei para uma época que não vivi, mas adotei como minha.

Dia sete de novembro de 2010. Eu vi um Beatle tocar na minha frente. Vi Paul McCartney tocar a trilha sonora de boa parte da minha vida. Num dedilhar de acordes meu mundo ficou pequeno demais diante da possibilidade de que nada mais é impossível. A rebeldia deu lugar a emoção, tornando difícil conter as lágrimas. E ainda me emociono ao lembrar de todos aqueles momentos em três horas de show.

Quando alguém me pergunta sobre um destes dois shows, faltam palavras. Como explicar a sensação de se ouvir ao vivo um gênio do piano tocar Great Balls Of Fire como se o tempo não tivesse passado? Ou a catarse que é estar no meio do estádio quando Paul McCartney canta Hey Jude? Talvez meus olhos marejados falem mais do que qualquer outra coisa.

Não foi o mundo que ficou pequeno. Fui eu que fiquei grande demais.

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Te Cuida

Com o passar do tempo você vê que as pessoas se tornam previsíveis demais. Até a surpresa do ato inesperado acaba caindo no agendamento das reações espontâneas programadas. Não há como fugir disso. Quer dizer, até há, mas o ônus da dor e o medo do novo não permitem dar este passo a frente, deixando todo mundo trancafiado na fortaleza do comodismo.

Este mesmo comodismo deixa as pessoas com aquela falsa sensação de segurança, do tipo “ande sempre em cima da trilha dos tijolos e nunca pise na grama”. Sair do caminho regular implica em sujar os pés, pisar em terrenos irregulares, e quiçá cair num buraco de vez em quando. Mais arriscado? Sim, com certeza. Mas mais experiente, e com menos medo de encarar os desafios da vida. Melhor do que viver com medo em cima dos tijolos, seguindo o caminho tido por todos como “o correto”.

Então você decide caminhar pela grama, e leva um tombo. Daqueles que machuca pra valer. Esta é a deixa para que o pessoal que caminha na trilha sólida abrir o baú de clichês que todo mundo conhece: “faz parte”, “acontece”, “você quis arriscar, então deu no que deu”, “uma hora você acerta o caminho”, “eu não te disse”, “levanta e segue em frente”. Como essas pessoas podem saber tanto sobre onde pisei se o caminho que elas conhecem é outro? Porque é tão fácil dizer para alguém que caiu se levantar como se nada tivesse acontecido? Quem anda pela estrada reta e firme não sabe a dor que um buraco pode causar. Tampouco sabe que em caminhos ermos os obstáculos são variados, e que cada um cai de um jeito diferente.

E no meio de tantas frases prontas ditas a esmo você ouve um “te cuida”. Simples. Bobo. Não menos clichê que tantas outras coisas. Porém, com um efeito diferente. Dizer “te cuida” para alguém não implica numa falsa imposição de moralismo, ou numa tentativa vã de se colocar no lugar do outro. Não reduz o sentimento alheio a nada. Vai mais além, indicando um ato que é tão peculiar e que para alguns é tido como egoísmo, de se preocupar consigo mesmo – já que a tendência é se preocupar mais com que os outros vão pensar. E se cuidando, os desafios à frente vão ficando menores na mesma proporção em que seu espírito cresce.

Portanto, se forem sair da estrada do comodismo e das reações comuns, boa sorte. E cuidem-se.

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