Eu tenho uma ligação muito forte com a música, especialmente com o rock. Não qualquer rock. Me criei ouvindo os clássicos, e são os clássicos que, mesmo com mais de 30 anos de existência, ainda me surpreendem. Na infância eu era aquele tipo de ouvinte inconsciente, que pouco se importava com o que estava tocando, qual era a banda, mas curtia mesmo assim. E uma das memórias mais latentes daquela época é a de um filme que passou na Sessão da Tarde e que até hoje é cultuado por gerações.
Foi o meu primeiro contato com os Beatles.
Mais adiante, quando a adolescência bate a porta, e inevitavelmente você começa a curtir mais música que o normal (até mesmo pra impressionar as menininhas), comecei a montar minha identidade musical. Na época do colégio havia o pessoal que estava na vibe grunge, os que iam mais pro lado punk, e as menininhas que curtiam as boybands do momento. Eu (demonstrando desde cedo a minha tendência de contrariar a manada) fui buscar minhas referências no passado. E aí cheguei até onde tudo começou.
Dia 16 de setembro de 2009. Cabeça ocupada com o término da universidade, comissão de formatura e contas que não paravam de chegar. No meio disso tudo, arranjei tempo para ver um mito do rock, o “matador” Jerry Lee Lewis. Ele fez parte dos primórdios do rock, e numa época onde a sociedade privilegiava os bons moços, Lewis era a rebeldia em pessoa. Eu vi um senhor de 74 anos subir no palco e fazer o publico delirar como se o tempo não tivesse passado. Por alguns instantes eu voltei para uma época que não vivi, mas adotei como minha.
Dia sete de novembro de 2010. Eu vi um Beatle tocar na minha frente. Vi Paul McCartney tocar a trilha sonora de boa parte da minha vida. Num dedilhar de acordes meu mundo ficou pequeno demais diante da possibilidade de que nada mais é impossível. A rebeldia deu lugar a emoção, tornando difícil conter as lágrimas. E ainda me emociono ao lembrar de todos aqueles momentos em três horas de show.
Quando alguém me pergunta sobre um destes dois shows, faltam palavras. Como explicar a sensação de se ouvir ao vivo um gênio do piano tocar Great Balls Of Fire como se o tempo não tivesse passado? Ou a catarse que é estar no meio do estádio quando Paul McCartney canta Hey Jude? Talvez meus olhos marejados falem mais do que qualquer outra coisa.
Não foi o mundo que ficou pequeno. Fui eu que fiquei grande demais.
