Blog do Piero

Archive for agosto, 2010

A Conspiração Mercury

Eu tenho um plano. São dez etapas simples, que vou explicar para que você também possa fazer aí na sua região.

1) Forme um grupo com dez pessoas. Não mais, nem menos. Dez é um número bom. Dê preferência para quem fala alto, ou trabalha de vendedor de tomate em feira.

2) Decorem a letra de Bohemian Rhapsody, ou de outra música foda do Queen.

3) Esta é uma etapa importante. Escolham cuidadosamente a linha de ônibus e o horário. Dêem preferência para os horários onde há movimento de estudantes (indo para a aula ou saindo da mesma).

4) Divida o grupo em dois ou três, e posicionem-se em paradas de ônibus próximas, para não perder o timing do embarque no mesmo coletivo.

5) Ao embarcar, espalhem-se pelo espaço do busão. Alguns no fundo, outros mais no meio, demais perto dos bancos para velhinhos, etc. Você entendeu.

6) Localize o grupo de maloqueiros filhos da puta dentro do ônibus. Eles estarão ouvindo um batidão de funk ou um pagode sangrento no celular. Você saberá disso porque estarão sem fones de ouvido, claro. Se não tiver nenhum lá dentro, faça como um bom caçador e espere a presa se aproximar.

7) Identificando as criaturas, se aproxime, bata (mas bata mesmo!) no ombro do cidadão (se é que podemos chamá-lo assim) que estiver de posse do artefato musical, olhe no fundo dos olhos e comece a cantar bem alto: “IS THIS THE REAL LIFE?” Esta vai ser a senha para que as outras nove pessoas comecem a cantar junto, cada uma de um lado do coletivo.

8) Pra ficar bonito, façam um jogralzinho. Uns cantam uma parte, o restante continua, o pessoal do fundão canta “EASY COME” enquanto o povo da frente responde com “EASY GO”. Lembre de ensaiar isso na etapa 2.

9) Sufoquem a música dos maloqueirinhos e transformem o coletivo no maior palco de rock sobre quatro rodas.

10) Terminem a música, digam para os fulanos que só o rock salva, e desembarquem como se nada de mais tivesse acontecido.

Vai diminuir o número de vagabundo ouvindo música sem celular? Talvez não. Mas vai SER ÉPICO!

(Não esqueçam de gravar a ação. Joguem no Youtube que eu publico aqui.

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Uma música fora do tempo

Então você está na rua fazendo cooper com o iPod tocando aquela trilha sonora motivacional para exercícios, quando de repente o shuffle manda um Love Me Tender. Não combina com o momento, né? Até o corpo começa a diminuir o ritmo para se adequar às batidas da balada romântica. A música entrou na hora errada. Não que você não goste dela (se não gostasse, não estaria no playlist), mas não era o momento para ouvi-la.

O mesmo acontece quando depois de um pé na bunda, você decide sair com os amigos para desopilar um pouco e dar risada das merdas que acontecem com você, e aí o maldito DJ toca aquela canção que embalou muitos momentos com o ex-amor. Aí é pra cortar os pulsos no cantinho. Os seus e os do DJ, claro.

Então ela cruzou o meu caminho com olhos perolados e um sorriso doce, quase infantil, a ponto de amolecer um pouco a pedra que bombeia sangue no meu corpo. Mas cheguei tarde, como aquela música foda que toca na festa depois que você sai. Ela até curte o meu som, mas no momento quer ouvir algo novo, algo que todo mundo está curtindo agora.

Hoje eu sou uma música fora do tempo. Vejo você ir embora, mas não troco meu repertório, mesmo que valha a pena. O som não pode parar.

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Necessidade e imprecisão

Navegar é preciso;
viver não é preciso.
(Pompeo)

A frase acima é atribuída a Pompeo, general e político romano que viveu nesta terra alguns anos antes de Cristo. Por conta da sua competência fora nomeado comandante de uma tropa especial responsável por eliminar a pirataria no Mar Mediterrâneo. Os conservadores políticos, que consideravam Pompeo um “baderneiro cheio de ideias novas”, queriam destituí-lo do cargo. Numa manobra estratégica, conseguiu assumir através do apoio popular. Como resultado, os piratas que ficavam nas rotas comerciais para a África e Ásia foram erradicados por completo. E provavelmente foi numa de suas insurreições marítimas que bradou a famosa citação.

Por anos a fio eu interpretava a frase pelo sentido óbvio: a necessidade da navegação perante a vida. Lançar-se ao mar seria mais importante do que a si próprio. Basta pensar em quantas pessoas optaram por enfrentar os perigos do oceano e todas as suas lendas ao invés de se acomodarem em solo firme. Graças aos corajosos capitães e marinheiros foram descobertos povos, cidades, continentes. Mudaram a geografia do mundo. Suas ações foram maiores que o tempo que passaram dentro de um navio, maior que o tempo que passaram em terra.

Porém, o jogo de palavras mostra outro significado. A navegação é uma ciência exata, baseada em estudos e análises que compreendem desde a mais alta engenharia na construção de caravelas, como também na astronomia em busca de orientação noturna. Já a vida, se fosse classificada como ciência, seria uma das mais complexas. Não há um apanhado de fórmulas que explique comportamentos como amor, raiva, saudade. Não há como mensurar a vida de alguém baseada em suas escolhas e dizer se foi bom ou ruim. E se você acha que consegue responder todas aquelas questões que cutucam fundo a sua alma, vem a vida e mostra que suas certezas eram meros equívocos. Viver é impreciso.

Então eu coloco o capacete e subo na moto. Ignição, partida, primeira marcha, aceleração, segunda marcha, aceleração, terceira marcha. Sinto a resistência do vento contra o corpo. Sinto o coração bater de novo a cada curva, e vejo a paisagem mudar a cada instante. A mente fica limpa como uma estrada vazia. Todos os problemas ficam para trás, enquanto o que interessa é o novo mundo que surge pela frente.

Se viver é impreciso, “navegar” é necessário.

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