Blog do Piero

Archive for março, 2010

Jump!

“Aqui de cima é tudo tão pequeno e tão cinza”. Foi o que pensou Pedro, quando contemplou a vista do parapeito do prédio mais alto da cidade. De lá ele via as pessoas caminhando como formigas de um lado para o outro e as buzinas de miniaturas de carros tentando movimentar um trânsito caótico em vão. A fumaça provocada pela urbe deixa o pouco de colorido de algumas fachadas num tom fosco, quase melancólico. Aos poucos, o movimento na base do prédio se intensificava, e era possível ver uma grande aglomeração de populares, que fitavam o céu, forçando a visão contra a luz do sol.

Pedro olhou no relógio. Três da tarde. Numa fração de segundo passou pela cabeça mandar todos aqueles desocupados curiosos à puta que os pariu, mesmo que seu grito não fosse ouvido por eles lá embaixo. Mas na fração de tempo seguinte, percebeu como a vida delas devia ser tão medíocre, para ficarem paradas aí por minutos, horas, lhe observando. As formigas-humanas são assim,  não conseguem assimilar algo que não esteja na sua programação inicial de sobrevivência e subsistência. Vivem para trabalhar, trabalham para viver. Quando sobra um tempo, alimentam-se, saciam as necessidades físicas, e olham TV para se comoverem com emoções que não são suas. Então quando alguma formiga se rebela conta o sistema imposto, acaba chamando a atenção.

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posted by Piero Barcellos in Ficção and have Comments (4)

A fúria de um Tornado

Antônio Viana Gomes é um velho conhecido da sua televisão, principalmente das novelas, séries e humorísticos da Globo. Para os mais velhos, ele já foi o Anjo Negro de Getúlio Vargas e o capataz Rodésio da viúva Porcina. Os mais novos talvez lembrem dele como o Avalanche do infantil Caça-Talentos. Acontece que Toni Tornado, como é conhecido o negão, é muito mais do que um grande ator. Ele é considerado o James Brown brasileiro, o percursor do Funk (o verdadeiro) e do Soul deste lado do Equador.

Aos 11 anos, após perder o pai, o pequeno Antõnio deixou a cidade paulista de Mirante de Paranapanema para tentar a vida no Rio de Janeiro. Virou garoto de rua, e sobrevivia fazendo bicos de engraxate e vendedor de balas, até ingressar no exército como pára-quedista. Chegou até a participar da guerra no Oriente Médio, onde Egito e Israel lutavam pelo Canal de Suez. Depois disso, passou boa parte dos anos 60 EUA, onde era traficante no Harlem, em Nova York. Lá conheceu o poder da Soul Music e a luta dos negros pela igualdade de direitos.

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posted by Piero Barcellos in Vitrolão and have Comments (2)

Não se apaixonem

Se eu pudesse dar aos meus leitores apenas um conselho, diria: não se apaixonem.

Foi comprovado cientificamente que pessoas apaixonadas ignoram qualquer pesquisa científica. Ignoram também as leis da física e da lógica – talvez daí venha aquela sensação de estar voando entre núvens.

A paixão é cega e não é a toa. Ela não escolhe pessoas pela aparência, pela idade, pelo biotipo. E por mais que digam que o nariz dela é grande, ou que ele é meio estrábico, você não liga. A cegueira é contagiante. Pega.

Não tente adivinhar quando você irá se apaixonar, porque é imprevisível e intensa. Quase como se você estivesse em meio a um abalo sísmico de nove graus na escala Richter. A diferença é que só existe uma vítima.

A paixão faz com que as palavras que tanto queremos dizer tranquem no céu da boca, oscilando entre sairem de uma vez ou serem engolidas para evitar uma bobagem que estrague tudo.

A mesma paixão que faz o corpo paralizar de medo é aquela que faz você se mexer incontrolavelmente em busca de um abraço apertado.

Estar apaixonado é como andar numa linha tênue que separa o êxtase da dor, com aquele ventinho sacana assoprando sempre para o lado deste último.

E quando dói, dói. A dor da paixão é igual a dar uma topada forte com o mindinho. Uma lágrima escorre no canto do olho enquanto dá vontade de gritar os mais inomináveis palavrões para todo mundo. Como cada um sabe a dor que sente, a tendência é mandar para um lugar não muito agradável qualquer um que chegar e dizer que uma hora a dor passa.

O pior é que passa.

Fica apenas aquela sensação de vazio.

Pois, por mais que a paixão provoque tantas reações adversas, é ela que desperta a sensação magnífica de se estar vivo.

Quando menos esperar, estará apaixonado de novo.

E ignorando o meu conselho. Sabiamente.

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posted by Piero Barcellos in Cotidiano and have Comments (7)