Olá amiguinhos! O post de hoje deve ser lido com parcimônia, de preferência com pipocas ao lado. Em um único texto, iremos falar sobre a crueldade humana, a ditadura da moda, o funcionamento das redes sociais, a indignação feminina e interpretação de texto. Como pano de fundo, teremos a história de Geisy Arruda, a moça da saia curta que causou furor numa universidade paulista, e hoje prova do néctar da fama instantânea – de Geni apedrejada à rainha do tablóide.
Tudo começou numa manhã de sexta-feira, após ver as fotos do Orkut da supracitada moça, fiz o seguinte comentário pelo Twitter:
Em seguida, falei diretamente ao @edgarpinky:
E logo em seguida, o motivo de tanta polêmica:
Pronto. Bastou esta frase para despertar o ódio feminino para cima de mim. Quem frequenta o Cevas & Blogs, maior evento de mídias sociais da América Latina, sabe que acima está uma inverdade totalmente descarada e polêmica: eu não bebo. Mas lógico que isso, bem como o que eu disse antes, foi desconsiderado – o popular “sangue nos zóio”. E reafirmei o que disse mais duas vezes: Geysi Arruda é interessante sim, e não estou contradizendo o que disse antes. Eu explico porquê.
Quando eu estava lá pela primeira série, eu tinha uma colega chamada Camila. Gordinha, daquelas de ter bochechas rosadas. Os colegas, claro, não perdoavam: chamavam ela de Piggy (até eu devo tê-la chamado assim). E claro, aconteciam aquelas situações em que ela saía chorando da sala, a “tia” chamava a atenção da turma, e todo mundo ficava na sua até que algum espírito de porco recomeçava a implicar.
Camila cresceu, assim como toda turma, e a implicância passou a dar lugar para a indiferença. Os guris, claro, lançavam olhares para as moças mais esguias, ou que possuiam particularidades mais atrativas (leia-se peitão e bundão). Camila continuava gordinha, mas nem tanto quanto antes. Havia entrado na academia. Porém mesmo que se dedicasse aos exercícios de segunda a segunda, ela não poderia vencer a genética que lhe deu aquele biotipo. Nas festas, ela fazia parte daquele grupinho que só fica com alguém lá pelas 3, 4 da manhã, quando todo mundo está bêbado e as opções escassas. Isso quando conseguia, ou quando queria ficar com alguém – era mais fácil sair de uma festa sozinha do que ter que aturar comentários no dia seguinte, de que “fulano ontem aumentou o colesterol”.
Camila, assim como Geisy, não faz parte do padrão de beleza instituído e compreendido por nós. Ela não faz parte do clube que estampa capas de revista, que desperta a atenção masculina, ou que venderia pudim de Leite Moça. E qual a mulher que não gosta de um elogio? De ouvir que está bonita hoje, de receber um olhar cobiçador? De despertar a atenção do cara mais bonito da aula, mesmo sabendo que é um canalha, mas apenas para provar para si mesma que consegue? Ela não quer ser mais aquela guria “simpática”, que houve os dramas e conquistas dos amigos homens que não irá pegar, tampouco a companhia feminina que valoriza a beleza das amigas. Ela quer ter o direito de ser feliz, de amar, de se apaixonar, de ser desejada também. Quem irá dizer que não?
Infelizmente, Geisy está inserida na realidade hipócrita de um país chamado Brasil. Um país onde as publicações femininas dizem que a mulher tem que ser assim:
Porém, a revista masculina mais vendida em 2008 foi essa aqui:
Geisy sabe que não foi abençoada com os genes da beleza feminina, muito comuns aqui no sul do país. Para competir no mercado das relações amorosas, ela se utilizou das únicas armas que o mundo tinha a lhe oferecer: confiança e ousadia. Passou a usar roupas que valorizam o decote e as pernas, e foi à luta, em busca da felicidade. E a felicidade, meus caros, é um variável inconstante para cada ser humano. Talvez, para inúmeras Geisys espalhadas pelo Brasil afora, a felicidade esteja em se sentir desejada. Parece fútil para nós, mas é vital para quem passou a vida inteira com a auto-estima rebaixada pela sociedade. Esta mesma sociedade idiota que quase linchou a moça dentro de uma universidade por usar um vestido curto, sendo que coisas muito mais picantes e graves ocorrem dentro das instituições de ensino e não são condenadas, nem tem a mesma repercussão.
Não hei de duvidar que a reação mais extremada na universidade partiu do público feminino. Nas matérias, é evidenciada a fala de alunas que diziam que ela “estava causando”. Tente imaginar um lugar onde toda a atenção masculina está voltada para uma mulher que não é um padrão de beleza. Há de se reconhecer que a inveja fez o seu trabalho bem feito. Da mesma forma que continua a fazer, com a repercussão das notícias sobre o ocorrido, e a elevação da moça ao status de sub-celebridade, com convites para entrevistas a programas de TV, e convites para a trindade Playboy – Sexy – Brasileirinhas. E a culpa é nossa.
O fato gerou muita repercussão. São mais de um milhão de resultados para o termo “uniban” no Google (usando como comparação, a Unisinos tem 610 mil citações – isso com colegas frequentando as aulas com roupas tão provocantes ou mais quanto uma minissaia). Só “Geisy Arruda” são 267 mil termos encontrados. Isso sem contas as citações no Twitter, que até o momento, somam mais de cinco a cada minuto. Como oportunismo pouco é bobagem, não seria lógico que alguém aproveitasse o assunto para gerar acessos ao seu portal de notícias bizonhas?
Busca pelos termos Geisy + Ego teve 694 mil citações. Digo que o portal está cagando e andando se a repercussão é negativa ou positiva. O que conta é que o assunto gerou polêmica e acessos. E quanto mais acessos, mais lucro para a empresa. Preciso dizer que outras matérias do gênero irão surgir enquanto nós continuarmos a dar corda para este assunto? A propósito, se não fossem as redes sociais, o assunto não teria chegado até a grande mídia, visto que o portal Globo.com (apenas um exemplo) só deu atenção ao fato oito dias após o ocorrido. E quanto mais o monstro é alimentado, mais indignação gera, e mais ele cresce.
Nós criamos o monstro. Somos todos, sem exceção, tão ignorantes quanto a turba enfurecida de estudantes que se formou no pátio da Uniban. Nosso preconceito não excede os limites físicos, como ocorreu, mas fica permeando na esfera do pensamento, e se propagando por aí como se fôssemos desprovidos de defeitos físicos e morais. Deixem Geisy curtir os 15 minutos de fama que demos a ela. Nossa vida não irá mudar por causa disso. Aceitem que ela será a gostosa das revistas masculinas daqui a poucos dias, por mais que não seja a sua vontade, mas é a da maioria do povo. Quem sabe, com o mundo a seus pés, Geisy conquiste a felicidade que todo mundo almeja, sem ser julgada pela sua aparência ou pelas suas atitudes.
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E, Camila… Se um dia você se lembrar de mim e acessar este blog, lhe peço desculpas. Assim como todos, eu era um idiota. Eu sou um idiota.
Aos que se ofenderam com as minhas recentes colocações de idéias, peço desculpas. Nem sempre me faço compreender. Principalmente as meninas do Cevas e Blogs – não se sintam ofendidas ou depreciadas. Geisy sim é interessante, como puderam ver acima. Vocês não precisam da notoriedade de um escândalo para se destacarem. Pensem nisso.








