
Dizem que João Gilberto é um cara recluso. Mora em um apartamento no Rio de Janeiro, de onde só sai para fazer shows e, de vez em quando, para ir na padaria comprar pão. Acorda tarde, e dorme mais tarde ainda. Neste tempo ele acompanha as notícias do dia, vê a novela das 8, e pega seu violãozinho para cantar baixinho as belezas de um pais que só existe na bossa nova. Dizem.
João Gilberto é tão recluso que nem os vizinhos desconfiam que no apartamento ao lado mora um ícone da MPB. Afinal, não é o tipo de celebridade que está aí nas capas de portais de fofocas, tampouco age como seus contemporâneos e destila comentários sobre política, economia, cultura e sociedade na mídia. Seu negócio é fazer música. E se o microfone falhar, ele reclama. Se o celular alheio tocar no show, ele reclama. Se alguém conversar na platéia ele reclama. Quando algo não sai do jeito que gosta, reclama. E por isso é chamado de chato.

Nelson Gonçalves, outro artista que também fazia muito sucesso na época, tinha um comportamento um pouco diferente. Apesar de se consagrar como cantor de boleros, podemos considerar que, pela sua atitude, o Nelsão é o primeiro punk rocker do Brasil. Era o cantor com mais tempo de casa na gravadora RCA. Mais tempo que o próprio Elvis Presley. Por conta deste prestígio, ele se sentia no direito de guspir nos tapetes vermelhos estendidos para ele – “sou eu que sustento esta merda mesmo”, afirmava.
Nelson Gonçalves era gago. Uma conversa poderia se propagar por horas caso o cantor trancasse em uma palavra. Mas na hora de subir no palco, já era outra pessoa. Após os arranjos iniciais da banda cessarem, ele levava o microfone perto da boca, e deixava sair aquela voz impecável de veludo: “Boemia… aqui me tens de regresso…“. Nelsão não fazia questão de cantar baixinho, nem de expor a sua vida trangressa durante os shows, para, logo em seguida, ilustrar seus sentimentos com a mais melosas das canções. Quando o seu vício das drogas chegou em um nível que nem ele aguentava mais, tomou a iniciativa de se trancar no quarto – pregou portas e janelas, deixando apenas um vão para que pudessem lhe passar comida. Só sairia de lá semanas depois, totalmente limpo, sem vícios, e melhor do que antes.
Dois personagens muito diferentes. E eu descobri que sou parecido com ambos.
Tal como João Gilberto, eu gosto de ficar no meu canto, quietinho, vendo a vida de uma maneira ímpar. Não sou avesso a multidões, a sair à noite pra balada. Aprecio muito uma boa conversa num boteco, e tenho meu modo peculiar de aproveitar a vida, por mais que tenha gente que duvide. E como Nelsom Gonçalves, eu sei me impôr quando preciso. Fora que, nos momentos certos, eu consigo superar qualquer dificuldade, sem decepcionar quem espera muito de mim. Sou chato como um, guerreiro como o outro, e louco como ambos.
Faz parte do meu show.
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Para ler: Fale com a minha mão
Para ouvir: Nelson Gonçalves – Faz Parte do Meu Show
Para ver: Void 51 – Nordestão Uivante


