
- Vamos lá, cara! Enquanto não aparece a pessoa certa, você vai se divertindo com as erradas!
Ele havia perdido a conta de quantas vezes ouvira aquela frase na vida. Ainda mais na véspera do carnaval. Se a máxima daquela marchinha fosse verdadeira, ele poderia se considerar um mau sujeito, com problemas mentais e pés tortos. O que não era verdade. Era só mais um cara que não gostava dos sons dos repiques e atabaques durante o reinado de Momo. Então, o que ele estava fazendo alí, fantasiado de pierrô, no meio daquele povo suado, bêbado, e assustadoramente feliz?
- Porra, meu! Nem parece que você nasceu no Brasil! Nem levantar os dedinhos como um gringo tu faz!
- É que isso aqui não é a minha praia…
- Tá, tá… Eu sei que não é a tua praia… Então ó, já que você tá aí parado, vai alí no bar e pega umas cevas pra nós. Toma aí a minha comanda.
E lá foi ele buscar umas “cevas” para o amigo que estava com as mãos ocupadas numa diaba da cor do pecado. Claro que não era simplesmente “ir até lá e pegar umas cervejas”. Era preciso atravessar um salão lotado, com sambão pegando e pessoas entorpecidas pulando de um lado para o outro. Esbarrou em alguns sultões e odaliscas antes de chegar ao balcão.
- Me vê uma ceva. Só bebendo pra aturar essa muvuca!
Foi quando ouviu um comentário ao seu lado.
- Bem-vindo ao clube.
Era uma mulher. Os cabelos dourados desciam pelos ombros e encobriam boa parte da fantasia comportada (vejam só) de enfermeira. Ele nem prestou atenção nas formas da moça, mas sim em seu comentário, raro num ambiente daqueles:
- Nem me fale. Só vim porque os amigos fizeram questão.
- Ô. E eu porque é a minha festa de despedida.
- É mesmo? Vai pra qual país?
- Haha! Pra nenhum. Vou ficar no Brasil mesmo. Vou trabalhar no Amazonas.
- E o que você faz?
- Não vê? Sou enfermeira!
- Hahaha! É mesmo!
- Nem precisei fazer fantasia. Viu como sou esperta?
- E o que a moça esperta vai buscar no meio da floresta?
- Emprego. Aqui não tem aparecido muitas vagas para enfermagem. Estão alegando “culpa da crise”. E lá têm muitas vagas abertas…
- Olha só, já que eu e você não gostamos de carnaval, porque não continuamos esse papo lá fora, que está menos barulhento e mais arejado. Topa?
Ela topou. E um certo amigo, além de ter ficado sem a diaba (que foi para o banheiro vomitar) naquela noite, também ficou sem a comanda e sem a cerveja, que estava divertindo um novo casal sob um céu de estrelas.
Trocaram nomes, gostos, divergências e afins. Conversaram sobre religião, rumos do governo, e livros que ambos andavam lendo. Ele confessou que não sabe dançar, e que tem vergonha disso. Ela confessou que até gosta de um sambinha, de um pagodinho de vez em quando, mas que estava sem clima para festa por causa da viagem. Ele prometeu fazer ela rir, e falou bobagens a noite toda. Ela riu daquele pierrô divertido, e prometeu nunca mais esquecê-lo. Era sábado de carnaval, e ela viajava na quarta-feira de cinzas. Se encontraram na festa de domingo, na de segunda e na de terça também. E em todas se divertiram, se sentiram e se amaram de um jeito próprio que só eles sabiam.
Na manhã de quarta-feira de cinzas, uma voz ecoou pelo saguão do aeroporto anunciando o vôo 1607 para Manaus. Ela faz o check-in no guichê, e preparava-se para ir a sala de embarque. Quando ouviu uma voz chamar tal qual um desenho animado:
- Olá enfermeira!
Ela se virou, e apesar do susto, abriu um grande sorriso:
- Meu pierrô? Você por aqui?
- Eu não podia deixar de vir aqui me despedir.
- Mas por quê?
- Por que o tempo é relativo. E em pouco tempo que a gente se conheceu, foi o suficiente para uma vida. Você significou muito para mim, como eu jamais pensei que um dia aconteceria.
- Eu… Eu também sinto o mesmo!
- Mas tudo tem o seu tempo. E o nosso foi rápido como um cometa, mas não menos intenso…
- E agora, o cometa está passando… E sabe-se lá quando a gente vê ele de novo.
Se abraçaram e se beijaram, como se fosse o primeiro beijo apaixonado de cada um. Ela enxugou a lágrima dos olhos:
- Nossa! Isso foi muito poético Parece até novela!
- É mesmo, hahahaha! Me lembrarei de vender os direitos autorais!
- Hahahaha! Bobo! Me fazendo rir de novo!
- Eu prometi isso, não?
- Promete que vai me deixar um scrap no Orkut todo dia, pra eu não morrer de saudades?
- Ninguém morre de saudades. Só se aprende a viver sem um pedaço do coração. Mas eu escrevo sim. E você? Vai me esquecer?
- Toda vez que eu rir, vou me lembrar de você.
Última chamada para o vôo. E ela sumiu em meio ao portão de embarque, em meio a um sorriso e uma lágrima. Assim que ela sumiu de vista, ele finalmente pôde deixar a sua faceta de pierrô sair, com um riso triste e salgado. Saiu de lá rumo ao trabalho, já que tudo voltava ao normal depois do meio dia. Não sem antes cantarolar uma antiga marchinha de carnaval, que aprendera nos últimos dias, e que servia para aquele momento:
Guardo ainda bem guardada
A serpentina
Que ela jogou.
Ela era uma linda colombina
E eu, um pobre pierrô.
Guardei a serpentina
Que ela me atirou
Brinquei com a colombina
Até as sete da manhã
Chorei
Quando ela disse:
“Vou-me embora.
Até amanhã,
Pierrô, até amanhã!”



