Nove da manhã, e lá vou eu de ônibus para o serviço. Coloco o MP3 no volume máximo, que é para não ter minha paz interrompida por um daqueles chatos de ônibus – aquele tipo que pergunta as horas, e quando você vê, a praga está falando sobre a infância em Bagé. Como tinha encontrado com uma destas figuras no dia anterior, hoje não iria ser tolerante.
Eis que senta na minha frente uma velhinha padrão: cabelos brancos, óculos de aro grosso, corcundinha… Ela sentou, se virou, me encarou nos olhos, e se virou de novo. “Vai ver, ela me confundiu com algum parente”, pensei. Ela se virou e ficou me encarando de novo. Fui obrigado a tirar os fones e perguntar “Pois não, senhora?”. Ela respondeu, de maneira seca e direta:
- Eu tenho uma mensagem de Deus para ti.
CA-CE-TE! Aquela não era uma simples velhinha! Era uma espécie de SMS divino! DEUS, o cara que criou essa budega a qual todos nós chamamos de existência, entrou em contato comigo! Mas o que ele quer comigo? Pedir que eu seja um cara bonzinho senão vou arder no inferno? Passar a cura de todos os males da humanidade? Me conferir poderes de aranha para combater o crime em Porto Alegre? Passar os números da Mega-Sena?
- Ó pra ti.
Não era um SMS divino. Estava mais para SPAM eclesiástico:

“Com certeza vocês ouviram falar a respeito Dele e, unidos com Ele, aprenderam a verdade que está em Jesus. E, quanto à antiga maneira de viver, abandonem a velha natureza de vocês, que está sendo destruída pelos seus maus desejos. O seu coração e a sua mente devem ser completamente renovados. Vistam-se com essa nova natureza, que Deus criou de acordo com a sua própria natureza e que se mostra na vida verdadeira, que é correta e dedicada a Ele. (Carta do Apóstolo Paulo aos Efésios 4, 21-24)”
E então, a velhinha me olhou com a ternura característica das avós me desejou um feliz Natal e um feliz ano novo, que todos os meus sonhos se realizassem, não só para mim como também para a minha família. Aquilo me pegou desprevinido, que fiquei mudo por um tempo. Retribuí as felicitações da senhora, que em seguida desceu do ônibus.
A velhinha não me conhecia. Nunca me viu na vida. E mesmo assim dedicou um pouco do seu tempo para me passar algo que anda em falta, que é o amor, na sua mais pura forma. Mandar energias positivas, desejar o bem, propagar a felicidade, nada mais é do que amar o próximo, sem distinção, mesmo sem saber quem ele é.
Nos dias de hoje, onde a gente vive uma ditadura da economia e da pressa, os rostos cansados e a estupidez humana deixaram de ser exceções para ser a regra. Nos acostumamos a resolver os problemas no grito. Nos acostumamos com a rotina de trabalho. Nos acostumamos com as tragédias humanas que não nos abalam mais. Nos acostumamos a nos acostumar. A humanidade se foca no trabalho e no dinheiro, criando falsas expectativas de felicidade: trabalham uma semana inteira pensando em aproveitar sábado e domingo; trabalham um ano inteiro na expectativa de tirar as “merecidas” férias; trabalham uma vida inteira pensando na aposentadora. É assim que eu, você, e a maioria neste planetinha conduz a vida – como gado.
E foi preciso uma faísca de carinho de uma senhora desconhecida para que eu caísse na real. Pra mostrar que o materialismo e o poder que a sociedade tanto enaltece são fajutos. E que apenas com uma palavra sincera, um gesto, um abraço, você é capaz de fazer uma revolução.
De fato, Deus tinha uma mensagem para mim. E era um SPAM de esperança.
Coincidência ou não, sabem qual era a música que estava tocando quando a velhinha me abordou?
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Façam a revolução. Feliz Natal e Feliz Ano Novo!
