Maio de 2007
- Maria, tu não vai acreditar! Consegui comprar a moto! Vou pagar em 72 vezes, devagarinho, que é pra não pesar tanto. Mas agora vou poder pegar aquele trampo de entregador…
- João…
- Mas não te preocupa. Vou me puxar pra sobrar um dinheirinho e fazer a inscrição no vestiba da Federal pra direito. E quando tu sair do Ensino Médio, eu vou poder pagar a inscrição pra ti também.
- João…
- Que foi Maria? Até parece que tu não tá feliz com as notícias que eu tou te dando?
- Tou feliz sim… só que hoje eu me senti um pouco enjoada, e eu fui no médico ver o que era. Eu tou grávida.
(silêncio)
- Como grávida, Maria?!?! A gente só transa de camisinha!
- Eu não sei, eu não sei! O exame deu que eu tou com quase dois meses…
- Não pode… não tem como esse filho ser meu…
- João! Tu tá duvidando da minha fidelidade??? Eu nunca tive outro homem! Tu é e sempre foi meu único namorado! Eu te amo!
- Amor? Tu vem me falar de amor numa hora dessas? Porra Maria! Tu é de menor ainda! Eu posso ser preso, sabia? Preso por um filho que não tem como ser meu!
- Eu não acredito que tu tá dizendo isso! (clic!)
- Maria! Maria! Que merda de orelhão… Puta que pariu…
Início de junho
- Oi.
- Oi…
- Tá tudo bem contigo?
- Vou levando, né…
- Eu… eu te trouxe isso aqui.
- Obrigada. O que é?
- Abre.
- Mas é… é um ursinho!
- É pro nosso filho. Ou filha, não sei…
(silêncio)
- Olha, Maria… Eu errei. Eu… fiquei nervoso com a notícia. Pô, eu não tava preparado… Só que eu te amo! Te amo muito! E… a gente tá junto em tudo… eu não ia te abandonar neste momento.
- João… Eu também te amo!
- Vamos voltar então. Por nós… e por ela.
- “Ela”? Tu quer uma filha?
- Se ela for bonitinha que nem tu e puxar essa boquinha linda e redondinha, quero sim.
- E se ela vier com a personalidade do pai, melhor ainda.
Dois dias depois
- Grávida de um motoboy. A nossa filha tá grávida de um motoboy!!!
- Calma Anselmo… Não é assim o fim do mundo…
- Não é o fim do mundo? Rosa! Pelo amor de Deus! A nossa filha tem 16 anos! E tá grávida de um pé-rapado! Como é que ele vai sustentar aqueles dois? Com o resto de pizza que sobrar da entrega?
- Não deseja isso pra nossa filha, Anselmo! Ela é apenas uma criança… não sabe nada do mundo!
- É… uma criança que já sabe trepar! E uma criança burra, que não se cuida! E se aquele vagabundo passou AIDS pra nossa filha! Eu não duvido, pela cara de marginal que ele tem…
- Anselmo!
- Rosa, o fato é que a nossa filha nunca deu valor pra tudo que a gente deu pra ela… Agora… Se ela é bem adulta pra ficar dando o rabo por aí pra qualquer um, vai ser adulta pra procurar um trabalho e pagar as contas desse… desse que tá vindo aí!
- Ele é nosso neto!
- Eu não tenho neto de vagabundo! E se ela quiser continuar aqui, debaixo do nosso teto, vai ter que deixar de ver aquele tal João!
- Mas ele é o pai! Ele tem direito!
- Direito tenho eu de meter aquele bostinha na cadeira por ter estuprado uma menor de idade! E, francamente Rosa! Tu acha que ele se importa? Pra aquele vagabundo, a nossa filha foi mais uma que ele conquistou e levou pra cama. A nossa filha virou historinha pra ele contar pra gangue dele de motoboys na hora da folga. E se eles se encontrarem de novo, eu vou ligar pro Renato, que é coronel, e vou meter a Brigada atrás deste bostinha. Aí quando eles pegarem esse filho da puta, ele nunca mais vai engravidar a filha dos outros…
Outubro de 2007
- Entra rápido, guri. Não demora muito, o Anselmo chega. Aí já viu…
- Eu também não tenho muito tempo, Dona Rosa. Sabe como é feriado, dá muito movimento de entrega… aí aproveitei o intervalo do almoço pra ver a Maria. Daqui a pouco eu tenho que voltar. Ela tá fazendo os exames direitinho?
- Está sim, João. Sobe lá no quarto dela. Ela tem uma novidade pra te contar.
- Oi amor!
- João! Meu Deus! Tu é louco! Se o meu pai te pega aqui…
- Sou louco por vocês dois, isso sim. Como estão vocês?
- Estamos bem. Olha só como a minha barriga tá grande! Ela vai ser uma guria enorme!
- Guria? Então é menina?
- Sim! Como tu sempre quis!
- Não acredito! A gente tem que dar um nome pra ela!
- Eu pensei em Vitória. É meio comum, e meio clichê também. Mas nós passamos por tanta coisa… brigas, a raiva do pai…
- Bah! Nem me fale! Eu sei que é o seu pai, mas depois que ele me ofereceu dinheiro pra sumir da tua vida, e quase te forçou a abortar nosso bebê, nunca mais quero ver ele na minha frente!
- Quem sabe ele muda de opinião quando ver o rostinho da nossa fi… da Vitória.
- É, quem sabe…
23 de Dezembro de 2007
- João, o que aconteceu? Que voz é essa?
- Maria, ouve bem o que eu vou te dizer, porque eu não tenho muito crédito no celular. Diz pra tua família que tu vai na casa da Ana hoje de noite, pegar umas roupinhas de bebê. Eu vou te esperar por lá, e a gente vai fugir. Teu pai descobriu que a gente tem se encontrado escondido, e botou a Brigada toda em cima de mim! Se eles me pegarem, vai acontecer o pior!
- Mas João! Eu estou quase com nove meses! A qualquer momento eu posso ganhar a criança! Como é que a gente vai fugir? Pra onde?
- Só tem um jeito. Vamos ter que fugir de moto. Tenho um tio que mora num sítio, deve dar umas duas horas de moto até lá. A gente fica lá até a poeira baixar, depois a gente decide pra onde quer ir. De repente a gente tenta a vida em outro estado. Um colega aqui do trampo largou tudo e se mandou pra Santa Catarina, e tá bem por lá. Vamos começar uma nova vida, eu, você e a Vitória!
- Isso é loucura!
- Loucura é ficar em Porto Alegre, sabendo que a qualquer momento eu posso desaparecer sem sequér ver o rosto da nossa filha.
- Eu vou. Te amo.
24 de Dezembro
- Que coisa…
- O que foi, amor?
- No ano passado, nesse mesmo dia, eu estava em casa, com toda a família reunida. O pai conversando com o tio Léo, contando sobre o andamento da empresa, a tia Ana me perguntando o que eu queria fazer pro vestibular…
- E tu provavelmente falou que queria psicologia, e a tua tia deve ter dito…
- Que psicologia não dá dinheiro. Hahaha! E eu achando graça daquela conversa que eu nem prestava atenção, porque estava esperando um certo João me ligar pra desejar Feliz Natal…
- E eu liguei. Da esquina da tua casa. Ainda acenei pra tua janela, mesmo achando que tu não estava vendo.
- Mas eu estava. E adorei… Mas isso foi no ano passado. Hoje, estamos aqui, foragidos do mundo lá fora, fugindo do meu pai, da polícia, das comemorações, do luxo… mas uma coisa me deixa muito feliz.
- O quê?
- É o primeiro Natal que eu passo em família. Com a minha família. Ai!
- Que houve, Maria?
- Nada não… AIAIAIAIAIAIAI!!!!
- Maria!!!!
- João! Acho que a Vitória não quer esperar!
- Meu Deus! E agora! Será que tem algum hospital aqui perto?
20 minutos depois
- Ainda bem que o fusca do tio está funcionando! Guenta aí, Maria! Estamos quase chegando!
- Rápido João! Ai Ai!!!
- Merda!
- Que foi? Por que tu tá diminuindo a velocidade?
- A merda desse carro está sem gasolina! Puta que pariu!
- Ai Ai!!! João! Tá doendo muito!
- Calma Maria! Tem uma luz lá adiante na estrada. Vou tentar levar o carro mais perto possível. Lá a gente pede ajuda.
10 minutos depois
- Olá. Posso ajudar em alguma coisa?
- Amigo, a minha mulher tá no carro entrando em trabalho de parto! Preciso de ajuda!
- Opa, opa! Peraí meu camarada! É véspera de Natal, eu tenho que traba
lh
ar na porra desse motel 24 horas até amanhã, e eu ainda tenho que ouvir essa? Agora só falta me dizer que tu se chama João, a mulher Maria, e ela tá esperando Jesus Cristo! E tu acha que eu vou chamar a ambulância? Eu vou chamar é a polícia, isso sim! Não vou cair na lábia de vocês!
- Pelo amor de Deus! Polícia não! Olha… eu sei que hoje em dia a gente não pode confiar em ninguém! Mas, homem! É a minha mulher! E é a nossa primeira filha! O carro está sem gasolina, e eu não tenho um pila na carteira. A única coisa que eu tenho de valor é a minha palavra. O senhor aceita?
(silêncio)
- OK, você venceu. O problema é que eu não tenho nenhum quarto vazio. O pessoal resolveu se acabar no feriadão, e lotou essa birosca. Mas tem uma vaga no estacionamento. Deixa o carro lá que eu vou chamando a SAMU enquanto isso.
- Muito obrigado! Muito obrigado mesmo!
Mesmo exausto, João empurrou o carro até o interior do estacionamento, e lá ficou com Maria, esperando a chegada da ambulância. Improvisou um leito com o banco traseiro do fusca, onde deitou Maria. Apertou firme a mão da companheira, enquanto as dores do parto aumentavam cada vez mais. Ao mesmo tempo que tentava tranquilizá-la, João, por dentro, estava com medo. E por um instante ele voltou no tempo, nas suas lembranças. E se arrependeu de ter entrado na vida de Maria para colocá-la naquela situação. Ela não merecia passar por tudo aquilo. Uma menina ainda, que tem o mundo pela frente, agora tem uma filha pra criar. E os estudos dela? E o futuro? E a juventude perdida? João chorou, como nunca havia chorado nesses nove meses. Estava no meio do nada, sem esperança e sem rumo, se perguntando se tudo aquilo valia a pena.
A resposta veio um minuto após a meia-noite. Uma resposta em forma de uma linda garotinha cor-de-rosa, de bochechas salientes e boquinha redondinha, como a da mãe. Os três paramédicos que estavam de plantão chegaram pouco tempo depois, apenas para constatar que tanto mãe quanto filha estavam bem, e que o pai havia sido um verdadeiro herói, mesmo não conhecendo os procedimentos necessários para a condução de um parto.
Esta não é uma história real. Mas poderia ser. Se fosse verdade, uns apontariam como milagre, um sinal divino. Outros dirão que é uma grande coincidência. E terá gente que afirmará que não se trata de um grande fruto da nossa imaginação. Então, pare para pensar um minuto. Pense nos pais adolescentes, que nem sempre possuem a maturidade para criar uma criança e assumir suas responsabilidades. Pense que ainda há pessoas que discriminam um semelhante por causa da profissão, da cor, da orientação sexual. Pense que ainda existem pessoas que corrompem serviços públicos pela causa própria. Mas pense também que o Universo é perfeito. E que o amor ainda é a maior das forças, capaz de superar todas as adversidades. O que vai acontecer com João, Maria, e Vitória, eu não sei. Nem você. Mas, assim como João, tenho certeza de que, mesmo com tantas dificuldades, vale a pena lutar pelo que a gente acredita.
Feliz Natal.

Pode até não parecer, mas este post não é pra falar sobre futebol, apesar da merecida queda do “Curíntia”.