“O horror, o horror…”
Marlon Brando (1924-2004) no filme Apocalypse Now (1979)
A frase do eterno Don Vito Corleone exemplifica bem o que passei ontem. Traumático, traumático… tive pesadelos à noite, e se fecho os olhos por alguns instantes, ainda sou capaz de ouvir aqueles barulhos medonhos invadindo minha mente…
Buenas, vamos ao capítulo da novela de hoje:
Não sou muito de sair. Não sou o “cara da noite”. Mas volta e meia eu abro algumas exceções. E quando eu saio, alguém sempre resolve levar uma câmera. E eu já não sou lá uma coisa que se possa dizer “que cara mais fotogênico”. Mas este não é o problema. O problema é quando alguém bate uma foto e o teu perfil quase encobre a pessoa que está do teu lado.
Sim, pessoas. Estou gordo. Não que isso fosse um problema, mas agora passou do ponto normal. De nada adiantaram os alertas médicos, ou o bombardeio do padrão estético da mídia. Uma foto foi o suficiente. Então, tive que encarar a triste realidade de um dia me tornar uma das coisas que mais abomino: um ex-gordo.
[Pausa pra explicação] Odeio ex-gordos. Eles são frutos da geração Malhação (a novela eterna), pesavam generosas toneladas, e agora que transformaram banha e massa cinzenta em músculos, acham que podem tudo. As mulheres ex-gordas usam roupas atochadas no rêgo, usam tops apertados pra dar aquela impressão de que tem peitão, e geralmente são conhecidas por serem ratas de academia, ou por darem pra todo mundo, a fim de compensar seu período de gordureza. Os caras usam aquelas camisas “bofe, olha como eu tou forte”, costumam se alisar na frente do espelho, quase comendo o próprio reflexo. Ah, e dão em cima de tudo que é guria, esperando, também, compensar seu período de gordureza.[Despausa]
Como não sou rico o suficiente para ser carneado numa mesa de cirurgia pelo Pitanguy, procurei o método mais acessível, que é a academia. Tem várias aqui perto de casa, o que me leva a crer que eu devia ter feito vestibular pra Educação Física ao invés de Jornalismo. Ou a mensalidade é mais barata, ou o vestibular é mais fácil, cadeiras mais barbadas de se passar… alguma coisa deve ter. (Alguém lá no fundo do salão levanta o braço e diz: “o curso tem um monte de gostosas!” É… pode ser. Mas daí eu digo que no Jornalismo também tem. E muito mais. E com um diferencial – elas pensam.)
Entrei. O lugar não tem paredes. Tem espelhos. Muitos espelhos. Até no teto. Pra que, eu não sei, e nem quero imaginar. Uma guria, muito simpática (entenderam o “simpática”? Hein, hein?), me atendeu. Disse a ela que achei a academia pela internet, e que queria conhecer. E ela me levou para o “tour”.
Confesso que fiquei incomodado com os espelhos. Dava aquela impressão de fundo infinito, saca? Fiquei até meio tonto, mas depois descobri o porquê. Não eram os espelhos, era a música. O tunti-tunti do capeta empesteava o ambiente, enquanto verdadeiros rinocerontes puxavam peso. Lembrei dos amigos que falam que ir na academia é bom pra ver mulher. Naquele ambiente onde eu estava, tinha uns dez caras, mais ou menos na minha faixa de idade, e três tias. Tias mesmo. Além da simpática. Ela ainda se esforça comigo, querendo me mostrar os “aparelhos” da academia. Olha, eu suponho que isso não varia de um estabelecimento pra outro. Deve ser tudo igual. Algumas lembram até aquelas máquinas de tortura medieval, ou as utilizadas pelo DOPS na ditadura. Medo.
A moça simpática não desistiu de mim. Disse que, pagando pelo pacote de musculação, também tenho direito a fazer uma atividade aeróbica, como “jump” (é assim que se escreve?) ou “aerocombat” (não dá pra ser Flight Simulator?). Daí pra me mostrar o que era, ela abriu uma porta (espelhada, claro). Alí sim, eu vi o horror: uma sala escura, com um globo daqueles de boate emitindo várias bolinhas coloridas pela sala, um monte de tias pulando em pequenas camas elásticas Na frente delas um cara, drasticamente bombado, coordenava os exercícios. Com pulinhos e gritinhos orgasmáticos. “Vamos lá genthiii! Vamos queimar toda essa gordura! Ihurruuuuu!!!”. Tudo isso ao som de música eletrônica. Juro pra vocês que, mesmo não sendo usuário, deu pra ter uma noção do que é uma verdadeira viagem de ácido.
Então é esse o meu purgatório? É por isso que eu tenho que passar para me sentir de bem comigo mesmo? Ressentido e cabisbaixo, perguntei o preço da musculação. A matrícula e mais três meses sairiam por R$ 304. Trezentos pilas pra se matar dentro de uma festa rave, cheia de tiazonas (mulher gostosa eu não vi) e brutamontes narcisísticos? Não, muito obrigado!
Parti para o plano 2. Cortei o refrigerante, os doces, bolachas recheadas, etc… Se tenho fome, como fruta ou bolacha água e sal. Se tenho sede, tomo água e suco. Pra não ficar tão sedentário, caminhadas, abdominais e apoios ainda são de graça e podem ser feitas no recanto e aconchego do nosso lar. E tudo isso sem abdicar de comer um xis ou uma pizza com os amigos nos findis.
Gordo moderado e sadio sim. Ex-gordo JAMAIS!!!
P.S.1: Canguinha, eu? Estou pensando no meu futuro carro, oras!
P.S.2: Abraços ao Fábio Salvador, que está com um novo projeto – o Melhor de Todos – e que me surpreendeu com um link para este blog na página inicial. Sucesso meu velho!