Sexta-feira chuvosa, fim do expediente de trabalho. Bom pra ir pra casa, não? Mas infelizmente, ainda tinha aula naquele dia. E no meio do caminho, em meio a conversas sobre relacionamentos, sexo e afins, eis que uma colega dispara:
- Piero, tu é a mulher da relação!
A princípio, minha primeira reação foi levar as mãos entre as pernas para verificar se o “equipamento” ainda estava lá, intacto. Mas isso não tem nada a ver com a minha heterossexualidade (hoje em dia são poucos os homens que assumem ser heteros. Culpa da globalização; ou, segundo o Analista de Bagé, das correntes migratórias…).
Na verdade, esta é uma forma de dizer que eu encaro um relacionamento muito mais por uma lógica racional/emotiva do que simplesmente instintiva. Vou dar um exemplo: Há tempos trabalhou comigo uma guria muito bonita. Era uma loira, alta, daquelas que não só parariam o trânsito como causariam até acidente. E apesar da beleza atenuante dela, sabe o que mais me cativou? Foi o jeito dela, meio atrapalhada, meio aluada. Me lembro direitinho dela andando na calçada, do outro lado da rua. Ela não me viu, mas eu vi a hora que ela, que caminhava segurando os cadernos contra o corpo, tropeçou num paralelepípedo e quase caiu. Ela ficou parada pou um tempo com o corpo inclinado, deu uma leve risadinha mexendo com os ombros, se postou ereta e continuou seu caminho. Naquela hora eu me apaixonei platonicamente por ela.
Segundo as minhas colegas, são as mulheres que têm essa coisa de se apegar a um gesto do homem, a um determinado olhar, ou jeito de se comportar. E geralmente os homens são mais atraídos por um belo par de peitos, coxas ou bunda. Lógico, não vou aqui no meio do texto pregar uma falsa moral em dizer que isso não me chama a atenção. Chama sim (e como!), mas de uma maneira mais instintiva do que passional. Até porque existem milhões de mulheres bonitas e gostosas por aí. Mas com aquele jeitinho meio zonzo da minha ex-colega, só ela tem. E é exatamente isso que me chama a atenção numa guria: o que ela tem de diferente em relação as demais, que a torna tão especial.
É por isso que eu também critico um pouco aquelas gurias que são esteticamente neuróticas. Se esquecem que a beleza física é transitória, e no fundo o que fica é a essência do que ela realmente é. Eu não me relaciono com um pedaço de carne, ou com um corpo. Mas sim com uma pessoa, com um ser com suas devidas qualidades e defeitos também (uma vez eu conheci uma guria de São Paulo que tinha T.O.C., e não gostava de ver as coisas bagunçadas. Eu me sentava no sofá da sala e desarrumava a colcha que o cobria. Quando me levantava ela ia lá e deixava tudo retinho de novo. Eu achava isso tão meigo nela, que foi o caso de um defeito ter me chamado a atenção).
Claro que, ser a mulher na relação implica em outras coisas. Em ser sentimental demais, em amar demais e esperar que a outra pessoa corresponda da mesma maneira, em acreditar em amor em uma época onde as pessoas se tornaram um produto descartável.
É bem provavel que, em um futuro próximo, eu vou ser o cara que vai ficar com os filhos em casa, preparando a janta, enquanto minha guria sai com as amigas para beber ou ver um Gre-Nal em campo. E eu não me importaria, porque ao menos eu não iria perder o capítulo da novela das 8, quando a Bebel vai voltar pro Olavo…
Isso é culpa da globalização… Só pode…
