Eu sou uma pessoa de personalidade forte. Assim, minhas opiniões também correspondem ao meu temperamento. E é claro, nem todo mundo concorda. Por exemplo, Chico Buarque. Trabalho num lugar onde ele é quase unanimidade. Eu sou o maior responsável por este “quase”. Porém, sou rechaçado toda vez que teço algum comentário sobre o velhinho. Isso também em outros assuntos menos fúteis, idem nos importantes. As pessoas não estão preparadas para receberem uma crítica e rebatê-la com argumentos plausíveis. Ao criticar o Chiquinho, ouço muitas vezes como resposta “Elvis é uma bosta”, ou “Elvis, que tu tanto gosta, está morto”. Então retruco, pedindo que compare todos os feitos do King of Rock’n'Roll e sua influência no mundo, com os do Chico Buarque. Qualquer argumento cai por terra.
Aqui no sul, o maior exemplo disso é o jornalista Juremir Machado. O cara tem opiniões fortes, foi demitido da Zero Hora porque não admitia dividir o mesmo espaço com o Luis Fernando Veríssimo. Hoje escreve pro Correio do Povo, alguns o taxam erronhamente de perdedor ou infeliz porque demonstrou opinião própria diante do maior jornal do Rio Grande do Sul, mesmo custando-lhe o emprego. E opinião própria, nos dias em que as pessoas são pasteurizadas, vale muito.
Tudo isso pra dizer que nessa terça, dia 13, o colunista da Folha de São Paulo, Álvaro Pereira Júnior, falou tudo e mais um pouco sobre as tendências da moda que ninguém vai contra. Eu incluiria mais umas dez coisas na lista que ele fez. Aí está:
No Brasil, falta gente que fale mal
Está fazendo dez anos da morte de Paulo Francis, e vejo na Globo News um programa de homenagem a esse jornalista, o mais influente para a minha geração.
Em um determinado momento, Francis -que havia sido crítico de teatro na juventude e tinha como grande marca falar (ou melhor, escrever) o que pensava- reclama de não haver crítica cultural de verdade no Brasil, de não haver uma tradição de contundência entre os analistas de cultura (se é que eles existem aqui).
Com base nessa declaração de Francis, e numa conversa recente com o amigo André Forastieri, elaborei uma lista de fenômenos culturais que merecem ser atacados (o que não tem nada a ver com eu gostar ou não deles, e sim com o fato de que é preciso bater nas unanimidades). Quem, a essas alturas, teria coragem de malhar sem dó…
…a série de TV “Lost”?
…a série de TV “Greys Anatomy”?
…o novo show de Chico Buarque, “Carioca”?
…o último disco de Caetano Veloso, “Cê”?
…o Cansei de Ser Sexy?
…o Bonde do Rolê?
…a obra de Rubem Fonseca?
…a arquitetura de Oscar Niemeyer (no dia em que ele morrer)?
…o próximo disco dos Arctic Monkeys?
…o filme novo de David Lynch, “Inland Empire”?
…qualquer manifestação pública de João Gilberto?
…qualquer manifestação pública de Tom Zé?
…um cenário de Bia Lessa?
…uma reportagem de Robert Fisk no “Independent”?
…o disco novo de Thom Yorke?
…a gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura?
…Dona Ivone Lara?
…um show de Los Hermanos?
…a série de TV “Heroes”?
…a revista “Piauí”?
Quem?
Chupinhado do Perfect Little Things.
