Atenção: Este post é um desabafo e contém conteúdo que poderá ofender algumas pessoas próximas a mim. Infelizmente, quando escrevo não uso as mãos, e sim o coração.
Fui convidado para uma festa. Não era qualquer festa. Era aniversário de duas amigas. E por um amigo a gente faz qualquer sacrifício, não? Até mesmo fazer coisas que a gente não gosta.
Confesso que eu não sou do tipo que tem hábitos e gostos dos mais comuns. Quando falo que não gosto de Chico Buarque, tem gente que torce o nariz. Alguns ameaçam até uma escarrada na minha cara, tamanho desprezo. Ora, gostar ou não de um estilo musical faz parte da individualidade de cada um. Se você não gosta de Elvis e Beatles, lamento. Mas nem por isso vou tentar te convencer do contrário.
Seguindo a narrativa, lá fui eu pra “balada”. Todo mundo vai pra balada, por que eu não iria? Afinal, como muitas pessoas me disseram, e me jogam na cara como se fosse uma verdade da qual deveria me envergonhar, eu tenho que aproveitar a vida. E a melhor maneira de fazer isso é indo para uma festa. Uma não, várias. Então fui aproveitar a vida da forma que me disseram que tem que ser.
Cheguei no lugar lá pelas onze da noite. Apesar da fila estar bem pequena, só consegui chegar na porta principal vinte minutos depois. Ainda tive que provar para o segurança que eu não era um criminoso, passando por uma revista. Não contente, tive que abrir minha pasta de aula para mostrar que não havia nenhum perigo em me deixar entrar.
À primeira vista, parece que tudo vai ficar bem no fim das contas. A pista não está cheia, a música está num volume bom, e eu consigo visualizar meus conhecidos. Um abraço aqui, um cumprimeto alí, e tudo transcorre bem. Alguém me oferece uma cerveja. Como não bebo, recusei e fui buscar uma água pra mim. Três reais uma garrafinha de água sem gás. É, eu também acho um absurdo. Mas sabe como é, “aproveitar a vida”…
É então que, do nada, acontece. A luz diminui, o lugar, que já é pequeno fica lotado, a música aumenta, e aquilo se torna um inferno. Uma caixa preta dos horrores. Já não ouço mais ninguém direito. O pouco que consigo ver é prejudicado por uma fumaça que sai não-sei-de-onde. Alguém me oferece uma cerveja. Eu recuso. Começa a sessão musical: dance, hip-hop e “nova MPB cult”, que é como eu classifico Vanessa da Mata e afins. As pessoas passam a se movimentar de uma maneira estranha na minha frente – efeito de uma luz que pisca sem parar e me deixa irritado. Alguém me oferece pela enésima vez uma cerveja. E eu recuso pela enésima vez.
De repente estou em um lugar muito bonito. Lembra muito aquele desenho dos Beatles, Yellow Submarine. Só que nele eles cantavam Eleanor Rigby. “Ahhhh, look all the lonely people…” Alguém me acordou. “Piero, volta. Você está em alfa!”. É, lá estava melhor. Alguém me oferece uma cerveja. Eu, pacientemente recuso.
Então é isso: aproveitar a vida é ficar num lugar pequeno, fechado e escuro, ouvindo uma música idiota a todo volume, onde as pessoas não conseguem conversar umas com as outras, e talvez por causa disso elas se entupam de álcool, e não se contentam se você não faz o mesmo, independente de você beber ou não. As pessoas tristes de Eleanor Rigby estavam na minha frente, dançando, bebendo, e achando aquilo o máximo.
Queria sair de lá o mais rápido possível. Me despedi das aniversariantes, que receberam o meu adeus de forma negativa. Ouví uma delas dizer que teriam que me mudar, me transformar. Foi então que saí de lá mais puto ainda. Então o meu jeito de ser é o problema? Eu sou o esquisito? Eu não sei aproveitar a minha vida? Será então que eu devo, sei lá, me matar?
Não.
Eu aprendi que o bem mais precioso que alguém pode ter é a sua essência. Tirem o dinheiro, as roupas, a matéria de alguém, o que sobra é o que ela é de verdade, do fundo da alma. E querem que eu mude. Que eu deixe de ser quem eu sou.
Cada um tem a sua maneira de aproveitar a vida. Conheço gente que prefere ir à Igreja e ficar rezando lá o fim-de-semana inteiro. Tem gente que curte ficar em casa com a família. Tem gente que gosta de ajudar os necessitados… e eles não aproveitam a vida mais ou menos do que qualquer um. A diferença é que eles são respeitados. Eu não.
Acabei de voltar de um ótimo passeio que fiz. Fui com minha família e com alguns amigos para um sítio em uma cidade próxima daqui. Ficamos o dia inteiro lá. Conversamos, contamos piadas, comemos um ótimo churrasco, andamos à cavalo, tomamos banho de piscina, de açude, pescamos, fizemos trilha… e eu me diverti como nunca. Aliás, ninguém me ofereceu cerveja, nem me incitou a fazer algo que não queria.
Então, para todos aqueles que acham que eu não aproveito a vida, que eu não sei me divertir, que eu devo tomar um porre pra ser considerado gente, que querem que eu mude o meu jeito de pensar e de agir, que se incomodam por eu ser assim e ser muito feliz desta forma… um grande e enorme FODA-SE. Com força e com eco.
E tenho dito.
Em breve voltaremos com nossa programação normal.