sábado, 28 de agosto de 2010

A Conspiração Mercury



Eu tenho um plano. São dez etapas simples, que vou explicar para que você também possa fazer aí na sua região.

1) Forme um grupo com dez pessoas. Não mais, nem menos. Dez é um número bom. Dê preferência para quem fala alto, ou trabalha de vendedor de tomate em feira.

2) Decorem a letra de Bohemian Rhapsody, ou de outra música foda do Queen.

3) Esta é uma etapa importante. Escolham cuidadosamente a linha de ônibus e o horário. Dêem preferência para os horários onde há movimento de estudantes (indo para a aula ou saindo da mesma).

4) Divida o grupo em dois ou três, e posicionem-se em paradas de ônibus próximas, para não perder o timing do embarque no mesmo coletivo.

5) Ao embarcar, espalhem-se pelo espaço do busão. Alguns no fundo, outros mais no meio, demais perto dos bancos para velhinhos, etc. Você entendeu.

6) Localize o grupo de maloqueiros filhos da puta dentro do ônibus. Eles estarão ouvindo um batidão de funk ou um pagode sangrento no celular. Você saberá disso porque estarão sem fones de ouvido, claro. Se não tiver nenhum lá dentro, faça como um bom caçador e espere a presa se aproximar.

7) Identificando as criaturas, se aproxime, bata (mas bata mesmo!) no ombro do cidadão (se é que podemos chamá-lo assim) que estiver de posse do artefato musical, olhe no fundo dos olhos e comece a cantar bem alto: "IS THIS THE REAL LIFE?" Esta vai ser a senha para que as outras nove pessoas comecem a cantar junto, cada uma de um lado do coletivo.

8) Pra ficar bonito, façam um jogralzinho. Uns cantam uma parte, o restante continua, o pessoal do fundão canta "EASY COME" enquanto o povo da frente responde com "EASY GO". Lembre de ensaiar isso na etapa 2.

9) Sufoquem a música dos maloqueirinhos e transformem o coletivo no maior palco de rock sobre quatro rodas.

10) Terminem a música, digam para os fulanos que só o rock salva, e desembarquem como se nada de mais tivesse acontecido.

Vai diminuir o número de vagabundo ouvindo música sem celular? Talvez não. Mas vai SER ÉPICO!


(Não esqueçam de gravar a ação. Joguem no Youtube que eu publico aqui.

sábado, 21 de agosto de 2010

Uma música fora do tempo

Então você está na rua fazendo cooper com o iPod tocando aquela trilha sonora motivacional para exercícios, quando de repente o shuffle manda um Love Me Tender. Não combina com o momento, né? Até o corpo começa a diminuir o ritmo para se adequar às batidas da balada romântica. A música entrou na hora errada. Não que você não goste dela (se não gostasse, não estaria no playlist), mas não era o momento para ouvi-la.

O mesmo acontece quando depois de um pé na bunda, você decide sair com os amigos para desopilar um pouco e dar risada das merdas que acontecem com você, e aí o maldito DJ toca aquela canção que embalou muitos momentos com o ex-amor. Aí é pra cortar os pulsos no cantinho. Os seus e os do DJ, claro.

Então ela cruzou o meu caminho com olhos perolados e um sorriso doce, quase infantil, a ponto de amolecer um pouco a pedra que bombeia sangue no meu corpo. Mas cheguei tarde, como aquela música foda que toca na festa depois que você sai. Ela até curte o meu som, mas no momento quer ouvir algo novo, algo que todo mundo está curtindo agora.

Hoje eu sou uma música fora do tempo. Vejo você ir embora, mas não troco meu repertório, mesmo que valha a pena. O som não pode parar.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Quanto você aguenta?



Não vou me estender muito, até porque a imagem fala por si. E faz pensar. Quantas vezes a gente leva uma porrada violenta da vida e acaba esmoecendo? Ninguém gosta de apanhar. Basta a primeira surra para saber que aquela sensação de perda e de dor não é agradável, e e que talvez pudesse ser evitada.

Mas evitar um confronto pelo medo da dor é coisa de covarde.

Você pode apanhar da vida. E muito. Mas uma hora ela abre a guarda. É o momento único em que você cerra o punho com força, mira bem no queixo dela e acerta um infalível uppercut, com direito a um grito de SHORYUKEN!

Vida, sua miserável. Um dia te venço de perfect. Um dia.

(imagem via JB)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Necessidade e imprecisão


Navegar é preciso;
viver não é preciso.
(Pompeo)

A frase acima é atribuída a Pompeo, general e político romano que viveu nesta terra alguns anos antes de Cristo. Por conta da sua competência fora nomeado comandante de uma tropa especial responsável por eliminar a pirataria no Mar Mediterrâneo. Os conservadores políticos, que consideravam Pompeo um "baderneiro cheio de ideias novas", queriam destituí-lo do cargo. Numa manobra estratégica, conseguiu assumir através do apoio popular. Como resultado, os piratas que ficavam nas rotas comerciais para a África e Ásia foram erradicados por completo. E provavelmente foi numa de suas insurreições marítimas que bradou a famosa citação.

Por anos a fio eu interpretava a frase pelo sentido óbvio: a necessidade da navegação perante a vida. Lançar-se ao mar seria mais importante do que a si próprio. Basta pensar em quantas pessoas optaram por enfrentar os perigos do oceano e todas as suas lendas ao invés de se acomodarem em solo firme. Graças aos corajosos capitães e marinheiros foram descobertos povos, cidades, continentes. Mudaram a geografia do mundo. Suas ações foram maiores que o tempo que passaram dentro de um navio, maior que o tempo que passaram em terra.

Porém, o jogo de palavras mostra outro significado. A navegação é uma ciência exata, baseada em estudos e análises que compreendem desde a mais alta engenharia na construção de caravelas, como também na astronomia em busca de orientação noturna. Já a vida, se fosse classificada como ciência, seria uma das mais complexas. Não há um apanhado de fórmulas que explique comportamentos como amor, raiva, saudade. Não há como mensurar a vida de alguém baseada em suas escolhas e dizer se foi bom ou ruim. E se você acha que consegue responder todas aquelas questões que cutucam fundo a sua alma, vem a vida e mostra que suas certezas eram meros equívocos. Viver é impreciso.

Então eu coloco o capacete e subo na moto. Ignição, partida, primeira marcha, aceleração, segunda marcha, aceleração, terceira marcha. Sinto a resistência do vento contra o corpo. Sinto o coração bater de novo a cada curva, e vejo a paisagem mudar a cada instante. A mente fica limpa como uma estrada vazia. Todos os problemas ficam para trás, enquanto o que interessa é o novo mundo que surge pela frente.

Se viver é impreciso, "navegar" é necessário.

domingo, 18 de julho de 2010

Quando se morre um pouco



Uma das principais dificuldades em aprender a tocar guitarra está em executar os acordes. A mente, acostumada com partituras, claves e notas, precisa agora aprender a ler tablatura. E os dedos precisam se cordenar para as posições corretas nas casas. Para quem não está acostumado, a pressão digital nas cordas de aço machucam. É preciso empregar força, para que a nota soe como desejada, compondo a harmonia perfeita do acorde.

Com o tempo, as pontas outroras macias dos dedos dão lugares a calos. Pedaços de pele morta que enrijessem e inibem a dor quando as extremidades encontram o fino e gélido fio de aço. Acordes sofridos nunca mais. Porém, ainda é estranho pensar que é preciso "matar" um pedaço de si para que surja outro mais forte e mais duro.

Um dia você cresce, e precisa matar um pouco da sua inocência infantil para ingressar no mundo das responsabilidades adultas. Uma parte do seu coração morre quando você toma um fora, deixando-o mais resistente para as próximas aventuras que virão. Uma parte de seus sonhos entra em óbito quando você é obrigado a mudar seus planos, e passa a caminhar com os pés no chão.

Se você acha isso ruim, basta pensar que foram de dedos calejados que surgiram as mais belas músicas.

I am a rock,
I am an island.
And a rock feels no pain;
And an island never cries
.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Nunca está bem

Ele pediu um croissant de queijo e um café. Ela um sonho e uma coca-cola zero. Sentaram-se no segundo andar da confeitaria. Fora ali que tinham se visto pela primeira vez, num fim de tarde. Era intervalo do lanche dela, que trabalhava como vendedora em uma loja do Centro. Parou para comprar algo para comer e se encantou com o sorriso daquele professor que, depois de uma aula, estava apreciando o café e a loirinha de uniforme que recém havia entrado. O resto, você já sabe, obra do destino.

Chegou o pedido dos dois. "Uma faca, por favor?" pediu ela. Gostava de cortar a comida em pequenos pedaços e ir saboreando aos poucos. Mania adquirida lendo uma dessas revistas femininas que ensinam a cuidar da forma. Já ele pegou o croissant envolto no guardanapo e mordeu sem cerimonia. O professor não tinha o hábito de ler revistas masculinas que lhe ensinassem a comer em pequenos pedaços. Creio que nenhuma revista masculina que se preze publica este tipo de conteúdo. Porém, se houvesse uma que ensinasse o homem a interpretar a cara de paisagem feita pelas mulheres, ele compraria. Era o que estava tentando fazer naquele momento enquanto sentia o gosto do queijo tocando o paladar: decifrar a seriedade por trás do olhar da sua namorada. Decidiu fazer aquela pergunta padrão que todos fazem por educação e esperam de retorno uma resposta padrão positiva.

- Tudo bem?

Não estava tudo bem. Nenhuma novidade até então. Uma vez que as pessoas não são perfeitas, seus relacionamentos seguem a mesma tendência, e algo nunca está bem. A menos que você seja um teletubbie e ache tudo muito lindo. Caso contrário, o mais próximo que você pode chegar disso é através da compreensão mútua de defeitos e anseios do seu parceiro. Coisa que, do ponto de vista dela, não estava acontecendo. E isso a irritava.

O culpado era o tempo. Porque, ora, o tempo sempre é o culpado genérico de todo fim de relacionamento. Se não é a falta dele para se dedicar a outra pessoa, é o excesso dele que sufoca. Se não é a rapidez como as coisas andam que assusta, é a lentidão da realização das mesmas. Neste caso, foi atribuído a ele um outro nome pelo qual é conhecido: rotina. Ela trocara de emprego e estava se formando em Turismo. Ele assumiu mais aulas para administrar. Quase não se viam mais. Ela queria passar um tempo fora do país. Ele... puxou uma pequena caixinha preta do bolso do casaco e, em meio à realidade dos fatos que lhe eram jogados na cara, perguntou o que faria com aquilo.

Ela abriu a caixinha, levou a mão à boca com uma expressão de susto. Por um momento, o mundo ficou em silêncio. O barulho dos talheres das mesas cessou, a movimentação da rua idem. Como se a Terra inteira tivesse parado para ouvir uma resposta. Fechou a pequena caixinha, respirou fundo, e a empurrou na direção dele.

- Devolva.

O professor engoliu em seco. Devolução de presentes é uma ação comum do sistema comercial. Você compra e o vendedor pergunta se deseja inserir um vale-troca, no caso do presenteado já ter o mesmo produto, ou não gostar do que recebeu (meias e livros de auto-ajuda devem estar no topo da lista). Mas sentimentos não podem ser devolvidos. Como pedir o reembolso de um amor eterno que não deu certo? Se o Inmetro se envolvesse nas relações sentimentais, diria que é um consenso geral de que o amor não é eterno, e sim um produto perecível de consumo imediato, sem garantias de duração, que pode variar de acordo com a vontade dos usuários. Como a razão difere da emoção, este pensamento sequer passou pela cabeça dele, que a baixou olhando fixamente para um ponto qualquer da mesa a fim de evitar que as lágrimas que caíssem fossem visíveis pelas demais pessoas.

Ela colocou a mão no rosto dele como um último gesto de ternura. Balbuciou baixinho um "fica bem, tá?", como se "ficar bem" fosse uma condição normal adotada por alguém logo após ser chutado de um relacionamento. Ficar bem leva tempo - o mesmo vilão genérico dos términos amorosos, numa busca pela absolvição dos pecados, ajuda a curar as feridas da alma.

Ela levantou-se e foi embora. Enquanto descia a escada, parou e fitou por alguns instantes a imagem daquele que um dia chamou de amor. Um leve fio de pensamento em voltar atrás cruzou sua mente, logo cortado pela ideia de que uma vez tomada uma decisão, não se pode voltar atrás. Desceu, pagou a conta, e sumiu em meio à multidão do Centro, deixando para trás um sonho partido em cima da mesa.

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A Confeitaria Matheus fica no Centro de Porto Alegre, na Borges de Medeiros, em frente às paradas dos táxis-lotação que vão para a zona sul. Recomendo um folhado de salsicha com batata-palha que é servido lá. O local virou um ponto de encontro comum entre a minha amiga de infância recente Raquel e eu para desabafar sobre as angústias da profissão e ouvir conselhos um do outro. Foi quando ela me chamou a atenção para o casal que estava logo atrás da gente, e que ao que tudo indica, estava rompendo um relacionamento. Quem há de dizer que as histórias fictícias são mais interessantes que as reais?

domingo, 11 de abril de 2010

Sob um céu de mostarda

Eram duas da manhã e eu não conseguia dormir. Achei que era o calor e joguei o cobertor para longe. Depois achei que era frio, mas ao me levantar para pegar outra coisa para me cobrir, já estava me vendo diante da geladeira aberta, procurando algo para comer. Optei por uma Coca-Cola gelada, já que o meu vazio interior não era de fome. Sabe aquelas de 600ml? Gelam rápido e são na medida para a sede de uma pessoa insone. Elas têm sido uma ótima companhia nas madrugadas. Acordo, pego uma delas e abro bem devagar, fazendo com que o “tssss” do gás aguçasse as papilas gustativas e rompesse o silêncio da noite.

Contrariando a modernidade, tenho uma vitrola e uma pequena coleção de discos raros. Os graves e os chiados de uma bolacha de vinil soam mais agradáveis ao ouvido. A tecnologia tem me enojado. O que era para aproximar, afasta. É o fim da verdade do olho-no-olho e o início de uma era de personas falsas, máscaras virtuais e indiretas capciosas. Como esse disco do Belchior de 1993. “Bahiuno”. Consegui uma edição rara em LP. Sempre que olho pra capa tento entender o que se passava na cabeça do bigode ao escolher um nome daquele. A construção mais lógica seria uma mistura das palavras “baiano” e “huno”. Plausível, já que a melodia suave como a do povo daquela região (influência dos Novos Baianos?) se contrasta com a poesia violenta do compositor cearense. Lado B da bolacha rodando primeiro, enquanto observo o parco movimento das ruas pela janela de casa entre um gole e outro da água negra.

Isso até a hora que toca "Balada do Amor".

sábado, 10 de abril de 2010

Profissional da Palavra


Minha professora de português da quinta série era uma senhora baixinha e gordinha chamada Maria Beatriz. A maioria das professoras do colégio tinham nomes compostos, que invariavelmente começavam com Maria ou Ana - até pensei que poderia ser uma norma imposta pelas freiras gestoras da instituição de ensino, mas na verdade era pura coincidência mesmo. Com tantas Marias e Anas, a confusão entre os nomes era inevitável, nada que um "fessora" ou derivados contornassem a situação. Mas da "sora" Maria Beatriz eu lembro. Foi no primeiro dia de aula que ela distribuiu para a turma uma crônica do Luís Fernando Veríssimo, "O Gigolô das Palavras".

Aqueles quatro parágrafos espremidos dentro de uma coluna de jornal xerocada mudaram a minha vida.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Jump!

QuedaLivre


"Aqui de cima é tudo tão pequeno e tão cinza". Foi o que pensou Pedro, quando contemplou a vista do parapeito do prédio mais alto da cidade. De lá ele via as pessoas caminhando como formigas de um lado para o outro e as buzinas de miniaturas de carros tentando movimentar um trânsito caótico em vão. A fumaça provocada pela urbe deixa o pouco de colorido de algumas fachadas num tom fosco, quase melancólico. Aos poucos, o movimento na base do prédio se intensificava, e era possível ver uma grande aglomeração de populares, que fitavam o céu, forçando a visão contra a luz do sol.


Pedro olhou no relógio. Três da tarde. Numa fração de segundo passou pela cabeça mandar todos aqueles desocupados curiosos à puta que os pariu, mesmo que seu grito não fosse ouvido por eles lá embaixo. Mas na fração de tempo seguinte, percebeu como a vida delas devia ser tão medíocre, para ficarem paradas aí por minutos, horas, lhe observando. As formigas-humanas são assim,  não conseguem assimilar algo que não esteja na sua programação inicial de sobrevivência e subsistência. Vivem para trabalhar, trabalham para viver. Quando sobra um tempo, alimentam-se, saciam as necessidades físicas, e olham TV para se comoverem com emoções que não são suas. Então quando alguma formiga se rebela conta o sistema imposto, acaba chamando a atenção.


sexta-feira, 12 de março de 2010

A fúria de um Tornado

Tony Tornado participando do Festival Internacional de Música em 1971


Antônio Viana Gomes é um velho conhecido da sua televisão, principalmente das novelas, séries e humorísticos da Globo. Para os mais velhos, ele já foi o Anjo Negro de Getúlio Vargas e o capataz Rodésio da viúva Porcina. Os mais novos talvez lembrem dele como o Avalanche do infantil Caça-Talentos. Acontece que Toni Tornado, como é conhecido o negão, é muito mais do que um grande ator. Ele é considerado o James Brown brasileiro, o percursor do Funk (o verdadeiro) e do Soul deste lado do Equador.


Capa do primeiro disco de Tony Tornado - 1971


Aos 11 anos, após perder o pai, o pequeno Antõnio deixou a cidade paulista de Mirante de Paranapanema para tentar a vida no Rio de Janeiro. Virou garoto de rua, e sobrevivia fazendo bicos de engraxate e vendedor de balas, até ingressar no exército como pára-quedista. Chegou até a participar da guerra no Oriente Médio, onde Egito e Israel lutavam pelo Canal de Suez. Depois disso, passou boa parte dos anos 60 EUA, onde era traficante no Harlem, em Nova York. Lá conheceu o poder da Soul Music e a luta dos negros pela igualdade de direitos.