Ele pediu um croissant de queijo e um café. Ela um sonho e uma coca-cola zero. Sentaram-se no segundo andar da confeitaria. Fora ali que tinham se visto pela primeira vez, num fim de tarde. Era intervalo do lanche dela, que trabalhava como vendedora em uma loja do Centro. Parou para comprar algo para comer e se encantou com o sorriso daquele professor que, depois de uma aula, estava apreciando o café e a loirinha de uniforme que recém havia entrado. O resto, você já sabe, obra do destino.
Chegou o pedido dos dois. "Uma faca, por favor?" pediu ela. Gostava de cortar a comida em pequenos pedaços e ir saboreando aos poucos. Mania adquirida lendo uma dessas revistas femininas que ensinam a cuidar da forma. Já ele pegou o croissant envolto no guardanapo e mordeu sem cerimonia. O professor não tinha o hábito de ler revistas masculinas que lhe ensinassem a comer em pequenos pedaços. Creio que nenhuma revista masculina que se preze publica este tipo de conteúdo. Porém, se houvesse uma que ensinasse o homem a interpretar a cara de paisagem feita pelas mulheres, ele compraria. Era o que estava tentando fazer naquele momento enquanto sentia o gosto do queijo tocando o paladar: decifrar a seriedade por trás do olhar da sua namorada. Decidiu fazer aquela pergunta padrão que todos fazem por educação e esperam de retorno uma resposta padrão positiva.
- Tudo bem?
Não estava tudo bem. Nenhuma novidade até então. Uma vez que as pessoas não são perfeitas, seus relacionamentos seguem a mesma tendência, e algo nunca está bem. A menos que você seja um teletubbie e ache tudo muito lindo. Caso contrário, o mais próximo que você pode chegar disso é através da compreensão mútua de defeitos e anseios do seu parceiro. Coisa que, do ponto de vista dela, não estava acontecendo. E isso a irritava.
O culpado era o tempo. Porque, ora, o tempo sempre é o culpado genérico de todo fim de relacionamento. Se não é a falta dele para se dedicar a outra pessoa, é o excesso dele que sufoca. Se não é a rapidez como as coisas andam que assusta, é a lentidão da realização das mesmas. Neste caso, foi atribuído a ele um outro nome pelo qual é conhecido: rotina. Ela trocara de emprego e estava se formando em Turismo. Ele assumiu mais aulas para administrar. Quase não se viam mais. Ela queria passar um tempo fora do país. Ele... puxou uma pequena caixinha preta do bolso do casaco e, em meio à realidade dos fatos que lhe eram jogados na cara, perguntou o que faria com aquilo.
Ela abriu a caixinha, levou a mão à boca com uma expressão de susto. Por um momento, o mundo ficou em silêncio. O barulho dos talheres das mesas cessou, a movimentação da rua idem. Como se a Terra inteira tivesse parado para ouvir uma resposta. Fechou a pequena caixinha, respirou fundo, e a empurrou na direção dele.
- Devolva.
O professor engoliu em seco. Devolução de presentes é uma ação comum do sistema comercial. Você compra e o vendedor pergunta se deseja inserir um vale-troca, no caso do presenteado já ter o mesmo produto, ou não gostar do que recebeu (meias e livros de auto-ajuda devem estar no topo da lista). Mas sentimentos não podem ser devolvidos. Como pedir o reembolso de um amor eterno que não deu certo? Se o Inmetro se envolvesse nas relações sentimentais, diria que é um consenso geral de que o amor não é eterno, e sim um produto perecível de consumo imediato, sem garantias de duração, que pode variar de acordo com a vontade dos usuários. Como a razão difere da emoção, este pensamento sequer passou pela cabeça dele, que a baixou olhando fixamente para um ponto qualquer da mesa a fim de evitar que as lágrimas que caíssem fossem visíveis pelas demais pessoas.
Ela colocou a mão no rosto dele como um último gesto de ternura. Balbuciou baixinho um "fica bem, tá?", como se "ficar bem" fosse uma condição normal adotada por alguém logo após ser chutado de um relacionamento. Ficar bem leva tempo - o mesmo vilão genérico dos términos amorosos, numa busca pela absolvição dos pecados, ajuda a curar as feridas da alma.
Ela levantou-se e foi embora. Enquanto descia a escada, parou e fitou por alguns instantes a imagem daquele que um dia chamou de amor. Um leve fio de pensamento em voltar atrás cruzou sua mente, logo cortado pela ideia de que uma vez tomada uma decisão, não se pode voltar atrás. Desceu, pagou a conta, e sumiu em meio à multidão do Centro, deixando para trás um sonho partido em cima da mesa.
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A Confeitaria Matheus fica no Centro de Porto Alegre, na Borges de Medeiros, em frente às paradas dos táxis-lotação que vão para a zona sul. Recomendo um folhado de salsicha com batata-palha que é servido lá. O local virou um ponto de encontro comum entre a minha amiga de infância recente Raquel e eu para desabafar sobre as angústias da profissão e ouvir conselhos um do outro. Foi quando ela me chamou a atenção para o casal que estava logo atrás da gente, e que ao que tudo indica, estava rompendo um relacionamento. Quem há de dizer que as histórias fictícias são mais interessantes que as reais?